Ele nasceu diferente, todos ao seu redor notaram isso. Alguns comentaram, mas a esperança de que fosse apenas uma fase serviu para acalmar os ânimos. Ledo engano. Cresceu, mantendo-se sempre incompatível com os demais. Aquela presença incomodava os mais exaltados. Era uma afronta às regras socialmente aceitas – supostamente – por todos. Logo, explicações foram cobradas.
– Quem você pensa que é para ser diferente de nós? Tem essa aparência porque quer se exibir? Se destacar na multidão? Chamar a atenção?
-Sim, quero chamar a atenção, mas não para inflar o meu ego. Desejo, na verdade, advertir para os malefícios dessa rotina corrida, estressante, desgastante, onde não sobra tempo para relaxar e curtir a vida. Tenho essa aparência para servir de alerta contra esse modo de vida. Quero que me vejam e repensem suas atitudes.
-Um rebelde! Era o que faltava. Fique sabendo que por aqui, todos nós mantemos uma aparência uniforme, saudável e alinhada. Deveriam arrancar você daqui…
-Como bem disse, “aqui”, pois em outros lugares, o convívio de diferentes lado a lado é natural, bonito, aceitável e até mesmo realizado de maneira artificial.
-Então você devia ter nascido lá. Você é um doente! Espero que façam um tratamento contigo. Vai ser melhor para todos se a uniformidade for mantida.
-Podem me esconder, mas não podem me calar. As mudanças já chegaram. Logo, surgirão outros iguais a mim, e seremos tantos, que lutar será em vão. Esconder-nos se tornará uma tarefa tão árdua, que o melhor será aceitar nossa existência. E quando esse dia chegar, vocês terão que aprender a conviver conosco.
A profecia se cumpriu. Começou a aparecer mais e mais rebeldes, por todos os lados. Os conflitos aumentaram. Alguns, mesmo pertencendo à classe majoritária, tentavam intermediar, argumentando aos conservadores que parassem com a implicância, uma vez que a população estava diminuindo, com algumas regiões já parcamente habitadas. Contrariando o senso comum, era melhor estar mal acompanhado do que só. Ainda assim, a intolerância continuava.
-Doente! Quebradiço! 
-Alvifóbico! Ponta dupla!
Enquanto fazia um cafuné no marido, sentados no sofá, a esposa dispara, num misto de alerta e deboche.
– Aiaiai Arnaldo. A idade bateu nesse corpo. Tá ficando grisalho!

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