Confere o relógio mais uma vez; 14h15. Falta muito até as 17 horas. Dá mais alguns passos; pára, vira-se; improvisa assim um rodízio, para que o sol aqueça – queime, na verdade – as pernas em todos os lados. Já nem sabe mais se as calças estão ajudando. Não tinha escolha; faz parte do uniforme, mas essa nem é a pior parte; as botinas são os verdadeiros instrumentos de tortura. Sua cor preta parece sugar para si todo o calor que se desprende da calçada. E ele está em todo lugar, sendo possível ver a sua presença quando foca a vista acima dos carros estacionados no olho do sol, com aquela distorção da imagem característica. Espicha mais a visão e nota que a fachada da loja no outro lado da rua já está na sombra, e assim ficará cada vez mais até o final do dia. Pena que tal sombra leve a tarde toda para cruzar a rua. Só chegará até suas botinas quando já for hora de ir embora. Pensa que o ideal seria trabalhar no turno da manhã ali e, de tarde, no outro lado. Nem que pra isso precise ter dois patrões.
O suor acumulado na testa começa a escorrer pela face. Usa a manga branca e fofa para enxugar o rosto, mas cuidando para preservar a discreta maquiagem. Não bastasse a roupa, o personagem ainda tinha que ter traços europeus. A família não levou muita fé quando disse que deixaria a barba crescer. A pança já vinha ganhando forma há anos. Depois de tentativas para eliminá-la, onde o que sobrava de determinação faltava em abdominais, o jeito foi aceitar a nova forma física. Para justificar, passou a usá-la no único emprego onde a barriga é socialmente aceita. Olha para a vitrine da loja que o contratou. Uma série de itens de praia o faz pensar nos motivos que impediram os brasileiros de tropicalizarem o personagem. Havaianas ao invés de botina, chapéu de palha no lugar da touca, bermuda e camiseta floriada substituiriam o quente traje vermelho. Será que ninguém pensa nos pobres senhores barbudos e obesos nesses dias de dezembro? Dá mais uma volta, pois a panturrilha já tá ardendo. O sobe e desce de pessoas segurando sacolas, ou crianças, ou os dois, faz o símbolo refletir sobre o seu significado.
– O que surgiu primeiro: o presente ou o Papai Noel? As pessoas estão comprando porque os “Noéis” estão em toda parte, lembrando que é época de trocar presentes? Ou será que os Noéis só aparecem na rua porque os lojistas sabem que as pessoas vão comprar de qualquer jeito, e estão garantindo que seja na sua loja? Se a figura do velho barbudo de vermelho sumisse, o Natal desapareceria?
Saiu do transe ao ouvir o choro de uma criança ao ser apontado pela mãe. Conferiu o relógio, 14h22. O calor é tamanho que até o relógio parece estar trabalhando devagar devido à lombeira. A mãe insiste que a filha vá falar com o Papai Noel. Ele manda um “hou hou hou”, sem muita convicção.

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