Como diz o ditado: “Desgraça pouca é bobagem”. Já não bastassem todas as fortes emoções vividas ultimamente na Cidade das Artes; agora é levantada a possibilidade de não haver verba para a realização da Feira do Livro desse ano, que já tem até patrono escolhido. Os motivos da escassez de recursos todos nós sabemos. O que talvez não saibamos é qual o impacto no longo prazo desse não investimento em cultura. Não precisa ser a Mãe Dinah para prever o possível futuro de uma sociedade que não prioriza a disseminação do conhecimento como modo de gerar qualidade de vida e riqueza.

Possivelmente, caso a Feira do Livro deixe de existir, os mais jovens perderão o estímulo de conhecerem obras completas de escritores que possuem o dom de fazer pensar. Isso está além da simples literatura que visa encher a cabeça das pessoas de conteúdo. E não errei quando falo sobre a feira deixar de existir. Se perdermos o embalo e abrirmos mão de realizá-la esse ano, será bem mais difícil encontrar forças para retomá-la no futuro.

Possivelmente, com a perda do hábito da leitura como meio de obtenção de conhecimento, as pessoas passarão a contar mais com os meios de comunicação, principalmente as redes sociais, para ficarem informadas. O que esconde uma armadilha, pois nessas fontes, qualquer um escreve qualquer coisa.

Possivelmente, com a falta de discernimento para julgar se uma informação é verdadeira ou não; se faz sentido ou não; os leitores do futuro tenderão a acreditar em tudo que leem; principalmente se for uma frase de efeito, sem autor e ilustrada com uma imagem legal. Uma nova filosofia de para-choque de caminhão.

Possivelmente, as pessoas estarão mais receptivas a ideias e ideais prontos. Num cenário desses, não faltarão espertos que usarão essa preguiça mental para vender suas crenças.

Possivelmente, quem abraçar essas crenças, tenderá a lutar contra os poucos que ainda as enfrentam com argumentos lógicos baseados em raciocínio. Como pensar dói, evita-se a dor ao eliminar aqueles que estimulam o pensamento.

Possivelmente, como estimular o pensamento é marca registrada dos grandes clássicos da literatura, essas obras passarão a ser vistas como nocivas aos cidadãos de bem que seguem a crença dominante. Destruir o inimigo faz parte, portanto, poderemos ver novamente na história, livros sendo queimados na fogueira em praça pública.

Possivelmente, se as previsões estiverem certas até aqui, será a última vez que veremos livros na praça.

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