Cantar é um dom. Fazer isso em público, então, necessita de certa dose de preparo, de ousadia ou de cachaça. Desde o pudim de trago local, que de madrugada resolve acompanhar o DVD do Reginaldo Rossi que passa na velha tevê de tubo em cima do freezer do bar, até o Luan Santana, com toda sua estrutura de som e luz, tocando em algum estádio lotado por aí. Em algum ponto entre esses dois extremos, está a banda de bailão.
Mesmo quem não curte esse estilo já deve ter visto na estrada aqueles ônibus adesivados até o teto, com logomarcas e fotos. A discrição não tem vez nesse mundo. Cada qual tentando se manter em evidência, pois só no grito, ou melhor, na voz, não é o suficiente. Como em todo ramo profissional, a competição força as bandas de bailão a permanecerem lutando entre si para garantir contratos nos cada vez mais escassos salões de baile. Para isso, precisam ser competentes para atrair sempre um grande público para os eventos de seus contratantes.
Pode parecer que não, mas nesse esforço em agradar os fãs, a voz do vocalista é apenas um item, perdido num universo de detalhes. Por exemplo, a apresentação visual dos componentes. Houve época em que parecia existir uma competição velada sobre quem tinha a camiseta mais estampada, depois quem passava mais gel no cabelo e, na sequência, quem usava a calça jeans mais apertada, e assim vai. A estrutura de som e luz também sofre pressões para evoluir. Atualmente, a banda com painéis de LED, que só serve para mostrar imagens ao fundo, é apresentada como superior. Ter CD próprio, mesmo com capa de papelão, ter camisetas e até copos de acrílico com sua logomarca, tudo isso faz a balança pender para o lado das bandas melhor estruturadas. Olha que até aqui não disse nada sobre saber cantar ou tocar. Um site interessante, páginas nas redes sociais sempre atualizadas, disposição para responder aos fãs, tirar fotos com eles, dar entrevista em rádios, assim vai. O lado empresarial parece sufocar o lado artístico do empreendimento.
Talvez ao público falte um pouco de ouvido para avaliar melhor a banda pelo que ela apresenta como produto principal, que é música! Falta também sensibilidade para entender que o trabalho deles não é só ali. Teve muito ensaio, correria para lançar música nova, e mesmo sacrifício para levar adiante uma profissão onde se trabalha naqueles dias onde a maioria dos amigos está descansando. Costumamos dizer que “vamos fazer a festa”, errado. Quem faz a festa é quem trabalha para ela acontecer. Os outros só aproveitam. Então, quando estiverem curtindo a festa, o baile, ou o que seja, reconheçam na banda o que ela é de fato: um grupo de artistas expondo seus dons. Caso contrário, qualquer empresário com dinheiro pode ter uma banda, comprando tudo do bom, de ônibus a equipamentos, e botando um pudim de trago como vocalista.

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