Num passado nem tão distante assim, um programa de TV apresentou, a título de curiosidade, o trabalho de um estrangeiro, que na adolescência tirou uma foto 3×4 de si mesmo, todo ano, em determinada data, por décadas. Ele então fez um vídeo onde cada foto aparecia por meio segundo, tipo uma linha do tempo. Notava-se a mudança das feições enquanto passava da adolescência rumo à vida adulta. No ano que se casou, acrescentou a foto da esposa. Agora eram duas fotos no vídeo. Não tardou, surgiu a terceira foto, de um bebê bochechudo. E assim foi passando, até mostrar o segundo filho; depois o terceiro. Foi curioso ver as transformações ao passar dos anos. Não apenas pela qualidade das fotos, mas pela própria mudança de estilo de cabelo, de barba; o surgimento dos fios brancos; as rugas. O passar do tempo nos fascina. Talvez seja esse o motivo daquele simplório trabalho chamar a atenção. Por mais que reclamamos do tempo e seus efeitos sobre nós, sabemos que ele é justo, ao recair sobre todos, igualmente.
No caso do vídeo, onde os anos passam em questão de segundos, fica fácil de ver as mudanças. Mas se observarmos com atenção, e pegarmos como base algum evento anual, já podemos ter uma ideia de como as coisas evoluem. Vou usar as festas de comunidade como exemplo. Domingo teve uma na Costa da Serra. Familiares, vizinhos, ex-colegas de aula; enfim, nosso primeiro círculo social. Conversando com aqueles cujo contato quase se perdeu por culpa da rotina, analisamos a mudança de comportamento da nossa geração.
O círculo em pé ao lado da pista de dança deu lugar para o sentado embaixo das árvores. O copo com cerveja perdeu espaço para a salada de frutas. As bolsinhas viraram sacolas coloridas cheias de fraldas e outros apetrechos. Não se olha mais ao redor procurando alguém interessante; mas o filho, que está correndo embalado em direção a tendinha que vende brinquedos. Uma toalhinha vira item de primeira necessidade, sempre na mão ou no colo, para livrar os pequenos do suor, da baba, do ranho. As pernas não servem mais para dançar; agora elas apenas correm para a tendinha onde o filho – sim, ele está lá pela décima vez – tenta sair com um Pokémon sem pagar. E quando finalmente resolvem ir embora, não é mais de moto; mas num carro cujo bagageiro que comporte as cadeiras de praia, o carrinho, o triciclo e toda a tralha para o chimarrão.
Estamos mudando. Já tivemos a fase de juntar tampinha no chão. A fase de jogar tampinha no chão. Agora estamos na fase de dizer: Tampinha que tá no chão não pode pôr na boca! Se isso não é a causa, deve ao menos ser um agravante para as rugas e fios brancos.

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