Era uma vez, um guri que trabalhava cuidando do rebanho de ovelhas, nos pastos que ficavam no topo da montanha, perto da floresta. Como o serviço era entediante e o sinal de wifi não chegava lá, o pastorzinho passava o dia pensando bobagem, como é típico de quem tem a cabeça vazia. Certa feita, no intuito de justificar o extravio de uma das ovelhas, que por descuido deixou cair num buraco, o guri chegou à praça do vilarejo, ao anoitecer, gritando:
– Lobo! Lobo! Um lobo atacou as ovelhas!
Foi um legítimo “fake news” ao vivo. Primeiro veio o silêncio. Depois, murmúrios começaram aqui e ali e, de boca em ouvido, a notícia se espalhou. Pequenos grupos discutiam suas teses, até que elas se solidificaram de tal forma que as colisões fizeram subir o tom do debate.
– Isso tem relação com a proibição da caça!
– As ovelhas não deveriam estar tão próximas da floresta.
– Hoje é noite de lua cheia. Não pode ser coincidência…
– Hoje foi uma ovelha, amanhã pode ser nossos filhos!
– A presença das ovelhas desequilibrou o ecossistema na montanha.
– Não só lua cheia, mas com eclipse lunar. Definitivamente, deve ter uma relação…
– Devemos derrubar a lei que proíbe o cidadão de proteger sua família das ameaças selvagens!
– Devemos proibir o acesso à montanha para a criação de animais domesticados.
– Deve ser um lobisomem semi-transformado…
– Temos que caçar!
– Temos que proteger.
– Temos que filmar e pôr no YouTube…
Tudo o que a mídia tradicional teve para noticiar foi o embate violento entre os caçadores armamentistas, que estavam dispostos a realizar um ataque preventivo contra a ameaça predatória; e os ambientalistas veganos, que defendiam a criação de um habitat protegido para a vida selvagem naquela montanha. Também seguiam as buscas pelos nerds aventureiros perdidos na mata, que foram em busca do registro do primeiro meio-lobisomem-eclipsado. Nenhum dos envolvidos se recorda quem foi que viu o lobo em questão. Biólogos entrevistados afirmam que na região não existem lobos.

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