Uma boa maneira de fazer alguém entender alguma coisa é comparar aquilo que você está explicando com algo que já é conhecido pela pessoa que recebe a explicação. Sendo assim, a comparação mais eficiente, para o brasileiro, é o futebol. Todos já vimos reportagens sobre áreas atingidas por desmatamento ou queimada, onde o repórter fala o tamanho em hectares, seguido do seu equivalente em “campos de futebol”. Óbvio que nem tudo pode ser comparado a um esporte, mas uma expressiva parcela da população, por algum motivo, conseguiu “futebolizar” o “infutebolizável”, que é as eleições.
Já foi dito que um dos nossos problemas, como povo, é colocar os sentimentos acima da razão. Daí vem a idéia do brasileiro cordial, mas esse cordial significa aquele que age com o coração, e não com a cabeça, o que, em muitos casos, atrapalha mais do que ajuda. Seguindo essa lógica, notamos eleitores que estão apaixonados por suas ideologias, partidos ou candidatos. Assim como um torcedor fanático pelo seu clube do coração – olha ele aí -, o eleitor militante tem sua visão distorcida pelos sentimentos que o inundam quando pensa ou fala do objeto de seu fanatismo. Do mesmo modo como o torcedor que apenas vê os pênaltis que seus atacantes sofrem e nunca os que seus zagueiros cometem; o eleitor também tende a enxergar apenas os pontos positivos de seu candidato, ignorando suas falhas. Pode até ser que, lá no fundo, ele saiba que a falta foi grave e merecia punição maior, mas o orgulho não permite admitir.
Outra espécie que surge como resultado da futebolização da política é o corneteiro. Numa disputa entre A e B, ele não torce para A, apenas é anti-B. Acompanham somente os pontos polêmicos, assim como os torcedores que não assistem ao jogo, apenas olham os lances mais importantes no canal de esportes, e com isso se consideram aptos para expor suas opiniões na primeira mesa redonda de bar que chegarem. Vai ver eles acham que ser um eleitor crítico significa ficar criticando o tempo todo.
Pior que podemos notar que nem todos os eleitores, fanáticos ou corneteiros, têm algum conhecimento de política. Eles nem sabem bem o motivo de estarem defendendo ou atacando um candidato. Pode ser apenas por motivos mínimos, como uma promessa, um posicionamento ou a simpatia – ou não – com a cara do vivente. Isso equivale ao torcedor crente que o futebol do seu time é o melhor do mundo, mas acha que meia só serve para usar nos pés, e volante é aquele negócio redondo no painel do carro.
Seria melhor se pudéssemos ver a política com a objetividade de um comentarista esportivo. Daqueles profissionais mesmo, que juram de pés junto que não torcem pra ninguém; não ex-jogador. Quem sabe assim poderemos debater as eleições num nível superior ao atual. No mínimo, com o respeito e a civilidade de uma torcida mista em Grenal.

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