-Doutor; fiz uma descoberta!
-Bom, levando em conta que esse é o Departamento de Antropologia, e você não deve ter estudado nenhuma tribo remota no coração da Amazônia nesse fim de semana, fico curioso sobre qual seria essa descoberta.
– É praticamente um fóssil vivo. Avistei um grupo formado por seis homo sapiens adultos – três machos e três fêmeas – que aparentavam ter menos de 30 anos de idade, mas que conseguiram ficar por mais de duas horas sem mexer nos celulares.
– Interessante. Acredita-se que pessoas com essa característica nasceram antes da última Era Digital, e estão quase todas extintas. Seus descendentes já chegaram ao mundo incapazes de sobreviver sem o Google.
-Eu sei. Por isso minha surpresa ao notar aquele peculiar grupo.
-Mas onde foi que os avistou? Em algum rincão onde nem pega sinal de celular?
-Não; foi num bar aqui no centro da cidade.
-Tinha Wi-fi grátis no local?
-Sim.
-Chega a ser quase impossível de acreditar. Você tem algum registro que sustente sua tese?
-Consegui as imagens da câmera de segurança do estabelecimento. Veja Doutor; o grupo está bem nítido nessa imagem, e a duas mesas pra esquerda, podemos ver onde eu estava. Ouvi tudo.
-Sobre o que eles conversavam?
-Primeiro conversaram sobre métodos de produção de alguma coisa possivelmente ligada ao emprego de um deles. Também discutiram sobre viagens e as diferenças entre a sua cultura e a dos povos visitados. Noutro momento, estavam relembrando situações passadas, pois provavelmente se conhecem há muito tempo…
-Em algum momento eles fizeram menção às redes sociais? Tipo, comentar sobre alguma postagem de um conhecido, ou se viram o texto de alerta no WhatsApp sobre supostos missionários religiosos que na verdade são ladrões que fazem magia negra?
-Nada. Todos os assuntos debatidos se restringiam ao mundo real.
-E fotos? Não tiraram nenhuma? Olha ali um deles levantando o braço… Opa, não, estava apenas chamando o garçom.
-Incrível não é mesmo? E observe agora o ângulo das cabeças em relação ao chão. Exatamente noventa graus, o que prova que estavam o tempo todo se olhando nos olhos. Nem as horas eles conferiam nos celulares. Usavam relógios de pulso!
-Esse talvez seja o registro dos primeiros indivíduos a nascerem imunes aos efeitos viciantes do mundo virtual. Precisamos encontrá-los para estudar se se trata de uma nova estrutura social, ou se é consequência de alguma mutação no sistema nervoso.
-Vou usar um programa de reconhecimento facial para descobrir quem são e onde encontrá-los.
-Ficarei no aguardo, mas quando tiver novidades, venha falar comigo pessoalmente. Estou a dez passos de você…

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