Nos idos tempos de adolescência, num evento para os jovens da igreja, participei de uma interessante “dinâmica”, que são basicamente brincadeiras com o intuito de ensinar algo. Claro que, na ocasião, pensei ser apenas mais uma distração para a gurizada, mas, enfim, vou contar melhor e vocês entenderão.
A dinâmica consistia em separar os jovens em pequenos grupos. Cada grupo recebeu uma folha de papel pardo, onde se via desenhada, num dos cantos, uma linha tortuosa verde, simbolizando uma floresta; noutro canto tinha duas linhas azuis, representando um rio, e com uma ilha ainda por cima; e, por último, num terceiro canto, passavam duas linhas retas paralelas, que seria a rodovia. O enorme centro da folha permanecia vazio. Junto com esse mapa, o grupo recebeu um canetão e uma lista de itens para distribuir, a fim de projetar uma cidade fictícia. Os itens consistiam em, por exemplo: bairro de classe média alta, delegacia, loteamento popular, praça, duas pontes, escola particular, igreja, hospital público, área industrial, prefeitura, escola pública, posto de gasolina, asilo, hospital particular, presídio, e outros que não me lembro. O grupo ainda tinha a possibilidade de descartar até três itens da lista no projeto, além de poder acrescentar outros três que julgasse necessário.
Durante a elaboração, alguns opinavam mais, enquanto outros ficaram praticamente calados – eu entre eles. Daí que saiu a seguinte sequência de decisões: “Bota a classe média desse lado”. “Coloca o loteamento popular do outro”. “Hospital particular perto dos ricos”. “Hospital público perto do loteamento”. “Escola particular junto dos ricos”. “Escola pública perto dos…” Nesse momento, um dos quietos perguntou se a nossa cidade não estava ficando muito dividida por renda; ao que um dos que tinham encarnado o Niemeyer respondeu: mas o mundo é assim!
Quando os trabalhos foram apresentados, me escondi de vergonha. Teve muitas ideias interessantes nos outros grupos. Cidades sem hospital e escola particulares, porque os públicos eram tão bons que os outros faliram. Outras com centros esportivos, bibliotecas e demais locais para o bem-estar. Teve até uma sem posto de combustível, porque era plana e todos se locomoviam de patinete!
Apesar dos incentivos ao pensamento “fora da caixa”, nessas horas notamos como nossa imaginação está limitada pelo mundo que nos cerca; tanto quanto o mundo é limitado pela nossa imaginação. Tirando os elementos naturais, tudo que existe nasceu primeiro na mente de alguém. As soluções também devem surgir dessa mesma fonte. Ainda que os esboços apresentados naquela dinâmica pareçam utópicos, o fato de pensarem alternativas já é um avanço em relação ao atraso causado pela aceitação da realidade como o melhor dos mundos possíveis. Que não nos falte imaginação, nem motivação, ou canetão e papel pardo.

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