Antes de existir a agricultura, o ser humano era um caçador-coletor. Algo parecido com o modo de vida dos índios que ainda existem em regiões remotas da Amazônia. Nesse sistema, não havia certeza se amanhã haveria comida. Então, ao invés de esperar que a natureza os alimentasse, os humanos passaram a produzir e a estocar, para evitar a fome até a próxima safra. Isso melhorou a vida, mas essa mudança não trouxe apenas vantagens. Um autor defende que a agricultura empobreceu a dieta, ao reduzir a variedade de alimentos consumidos por esses primeiros agricultores. Segundo esse pesquisador, um caçador-coletor consumiria uma fruta hoje, uma caça amanhã, uns cogumelos na outra semana, e assim vai. Já o agricultor que produzisse arroz, por exemplo, comeria arroz todos os dias, o ano todo. Resolveram o problema da fome, que mata rapidamente, mas criaram outro, que mata à míngua.
Pensei nisso ao observar uma prática bem comum nessa época de férias, que consiste no modo como as pessoas se organizam para alugar casa na praia. Parece haver uma tendência em juntar indivíduos que, no dia a dia, não se vêem. Claro que podemos muito bem ver colegas de trabalho compartilhando um apartamento no litoral. Até porque o ambiente permite que conversem sobre assuntos que não poderiam na hora do serviço. Mesmo assim, observo uma inclinação das pessoas em sair com parentes e amigos com os quais quase não têm contato durante o decorrer do ano. A rotina nos prende ao convívio com um número limitado de pessoas; então, quando chegam as férias, e a tal rotina pode ser deixada de lado, aproveita-se para dar uma variada.
Indo além, podemos afirmar que tal comportamento não se restringe ao litoral. Pode ser um domingo na piscina, uma excursão pra Serra, um passeio no balneário. Usar tais eventos para reforçar os laços de amizade já é tão comum quanto fazer maionese no domingo. É a rotina anti-rotina.
Assim como devemos evitar a “fome de convívios”, precisamos também atentar para a diversidade desses relacionamentos. Ao conversarmos, trocamos ideias, e elas funcionam como alimento para nossa própria visão de mundo. Quando ficamos presos a um pequeno grupo, nos tornamos igual aquele que só come arroz todo dia. Vivo, mas desnutrido. Saudável mesmo é consumir uma dieta variada de opiniões. Algumas vão ser tóxicas, outras sonsas, mas, no final das contas, sairemos mais fortalecidos. Nada melhor que as férias para dar uma mudada no cardápio.

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