Ouve-se o baque. Alguns instantes atrás, tudo corria bem. Seria possível apontar uma causa, ou várias? Momento de distração. O pé um tanto mais pesado. Um descuido. Reflexos alterados. Pressa, pura e simples. Imprudência, que resume tudo. Difícil julgar as variáveis; mas o resultado está nas estatísticas, nos jornais, na conversa sensacionalista. O baque é o primeiro acorde do pesadelo que está por vir. O ato mais dramático daquilo que chamamos de trânsito. O acidente.

Estilhaços de vidro e outros pedaços espalham-se pela pista. Os carros, que antes enchiam os olhos pela beleza das curvas, agora estão deformados, amassados, repuxados. Num primeiro impulso instintivo, os mais próximos do acidente correm para acudir os envolvidos.

Entre tentativas mais carregadas de boa vontade do que de método, alguns ligam para aqueles em condições de fazer algo. Polícia, ambulância, bombeiros. Que bom esses números terem apenas três dígitos. Nem sempre eles podem atender de pronto, afinal, também possuem suas próprias tragédias; com causa bem conhecida. Descaso. Ainda assim, aqueles que podem empenham-se para realizar sua missão o melhor possível.
Além de ajudar naquele acidente, alguns voluntários correm para evitar outros em sequência. Sinalizar a via é o começo; depois se espalha pelos primeiros carros a se aproximarem, ligando o pisca alerta. Alguns desembarcam na tentativa de ajudar, ou apenas para ver mais de perto. Por mais que tenhamos evoluído, ainda somos bárbaros, sedentos por beber sangue com os olhos. Em meio à curiosidade, os heróis por profissão precisam abrir caminho entre os xeretas. Assim que avaliam a situação e decidem as prioridades no atendimento, não deixam de dar uma palavra para acalmar os feridos que ficarão para depois. E os curiosos aumentam, iguais mosquitos atraídos pelas luzes das viaturas.

Com os resgatados em segurança, a ambulância parte ao hospital mais próximo. Assim que as luzes se afastam, sobrando para trás apenas as sucatas à espera do guincho. Começam as especulações. Cada qual mais Sherlock Holmes, na tentativa de solucionar o caso e encontrar o culpado. Distância da marca de frenagem, estado geral e posição dos carros. Tudo vira adubo para teorias férteis. Como se isso ajudasse. O mal está feito, sobrando apenas torcer pela melhora dos feridos, e lamentar os mortos, quando há. O guincho leva as carcaças embora. Os curiosos vão também. Sobram apenas pequenos pedaços pelo chão, e a expectativa de onde será ouvido o próximo baque.

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