Filas de banco são ótimas oportunidades para reparar no ser humano e seus mais estranhos comportamentos. A necessidade de ficar parado enquanto espera sua vez proporciona um raro momento de ócio, onde a expectativa pela senha aparecer no monitor não é o suficiente para prender a atenção dos mais curiosos. Numa dessas, observei um cidadão que se esparramou numa cadeira próxima, com seu ticket. Mal tinha se ajeitado, a funcionária que auxilia na emissão das senhas foi ao seu encontro.
– Senhor, sua senha vai aparecer no monitor ali atrás.
– Mas eu tô atento…
Vendo que o aviso não teve efeito, retornou ao seu posto. O senhor, não estando por satisfeito em bancar o esperto pra cima da funcionária, ainda puxou assunto com quem estava na cadeira ao lado:
– Não é por que estou de costas que não tô prestando atenção.
Na sequência, ele passou a falar de si mesmo, contando sobre ter sofrido um acidente de moto e coisa e tal. Nem meio minuto depois, alguém das mesas às nossas costas começa a chamar uma determinada senha, já que ninguém se mexeu após aparecer na tela. Nesse momento, vejo a mesma funcionária pisando fundo em direção ao vivente, com os lábios comprimidos, como quem segura entre os dentes alguns desaforos que a profissão não permite dirigir ao cliente.
– Chamaram sua senha (disse num tom de voz que mostrava não ser bem isso que gostaria de falar).
Ele nem agradeceu. Cortou o assunto e foi para uma das mesas.
Pode parecer apenas uma situação cômica, mas acredito ser um exemplo da falsa sensação de conhecimento. Muitos se intitulam sábios por estarem, teoricamente, sempre antenados, conectados a tudo. Aquele senhor acreditava que seria capaz de prestar atenção em tudo que estivesse ocorrendo em sua volta; mas foi só a pessoa ao lado demonstrar interesse pela conversa com a funcionária, ele já desandou a falar sobre si mesmo, seu acidente automobilístico e por aí foi. Assim como ele, as pessoas sentem necessidade de falarem sobre si mesmas, e quando encontram ouvidos minimamente dispostos a ouvir, se entregam de tal jeito que até esquecem-se de prestar atenção no que está ao seu redor, mesmo que seja o motivo de estar ali.
Não sejamos inocentes; nosso mundo pessoal, sempre que tiver oportunidade, vai ofuscar nossa atenção do mundo real. Somos assim, basta reparar. Contar a história triste sobre o acidente de moto é mais importante que prestar atenção na senha e fazer a fila andar.

Deixe seu comentário