Estudiosos defendem que os primeiros grupos humanos compartilhavam a crença no “animismo”. Eles acreditavam que todo lugar, todo animal, toda planta e todo fenômeno natural tem consciência e sentimentos. Assim, os primitivos poderiam acreditar, por exemplo, que a tempestade era uma chuva com raiva, ou que uma árvore não tenha carregado de frutas num ano porque estava magoada com eles. Essa maneira de explicar o mundo ao seu redor foi, com o tempo, substituída pelas religiões teístas e seus deuses. Contudo, em certas circunstâncias, parece que algo de sobrenatural altera a realidade em nosso entorno, como se estivesse em busca de algum objetivo. Analisando o que aconteceu semana passada na Costa da Serra, me pergunto se a ERS 411 tem uma alma que clama por socorro, ou apenas um espírito de porco fanfarrão.
Na última terça-feira, uma equipe da RBS TV esteve às margens da rodovia gravando uma reportagem sobre a ainda não resolvida questão dos trechos onde o asfalto foi removido sem a consequente finalização da obra. O que não faltou foram moradores e motoristas dispostos a darem depoimento sobre os problemas enfrentados diariamente. Também teve bastante tráfego para que o cinegrafista pudesse registrar os solavancos, os carros se arrastando e alguns trafegando na contramão. Até aí, a equipe teve uma boa visão do problema a ser noticiado.
Para aumentar ainda mais a dramaticidade, eis que surge uma ambulância. O motorista, ao ser entrevistado, confirmou a dificuldade para executar o trabalho em tais condições. Então a equipe pega carona na ambulância, entrevistando a senhora com fratura na perna, enquanto todos chacoalhavam. O Estado causar dificuldade para o cidadão já é revoltante; mas quando ela atinge crianças, idosos ou pessoas enfermas, aí a indignação vai ao limite. O material recolhido já daria uma matéria que merecia entrar ao vivo, mas teve mais.
Ainda durante as gravações, a poucos quilômetros dali, um acidente entre uma carreta de bois e um carro chamou a atenção para outro problema da 411, e esse existe desde sempre; a falta de acostamento. Carro batido, carreta quebrada na beira da pista, polícia no local com cones, aquela cena completa. Lá se foi a equipe cobrir o fato. Resumindo, o repórter entrou ao vivo, com direito a interação com a apresentadora no estúdio.
Pensando bem, parece que tudo conspirou para que a reportagens fosse um sucesso. Mesmo que um acidente de trânsito, ou o sofrimento de um passageiro de ambulância sejam coisas que a luta pela conservação da rodovia visa evitar; ainda assim o fato delas terem sido mostradas na mídia aumenta as chances de que alguma providência seja tomada. Espero que alguém do governo estadual tenha ficado envergonhado, e agilize a solução. Acho que até a rodovia já perdeu a paciência.

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