Enquanto os brasileiros ainda admiravam-se com o Nokia 5120, que para muitos foi o primeiro celular, os japoneses já dispunham em seus bolsos de tecnologia que poderíamos chamar, sem medo de errar, de “coisa de japonês”. Uma reportagem naquela época mostrava a consumidora no mercado, diante de um melão. Através de seu celular com acesso a internet, ela pode utilizar o código de barras na etiqueta para conferir informações, como local e data de colheita, nível de maturação, teor de açúcar e até a foto – em cores – do agricultor que colheu aquela fruta. Enfatizaram que cada uma tem seu próprio código, ou seja, as informações eram referentes a aquele melão em particular. Bota exclusividade nisso.
Lembro de ter pensado se isso um dia chegaria por aqui. Atualmente, sem dúvida que as ferramentas já estão em nossas mãos. O brasileiro está conectado, usando aparelhos com mais recursos que o da tia do melão. Ainda assim, o mercado consumidor daqui parece não ter a mesma curiosidade nipônica sobre o alimento que vai comprar. Até podemos levar em consideração uma diferença cultural, pois no Japão, as frutas in natura são mais caras pra produzir, tanto que é costume dá-las como presente, com direito à caixinha e top de fitas. Isso explicaria o comportamento indiferente do brasileiro pelo alimento. Crescemos com a crença no país da fartura, onde, se algo custa pouco, está com preço de banana.
Se você, leitor, é um produtor de alimentos, deve estar pensando que é bom mesmo que esse negócio não tenha pegado por aqui. Seria talvez mais uma incomodação. Agora, pense se pudéssemos mostrar ao consumidor mais do que apenas informações de colheita e nossa cara na foto. Imagine divulgarmos quantas horas de cuidado foram gastas para aquele produto existir. Quantos dias de chuva que encaramos. Qual a temperatura no olho do sol. Quantas horas dedicadas tarde da noite, ou em fim de semana. Quanta burocracia precisou ser vencida. O quanto o produto chacoalhou por estradas semi-abandonadas. Qual o custo dos financiamentos. Quanto de perda por fatores climáticos.
Infelizmente, o brasileiro prefere usar a internet pra fazer bobagem, e continuar reclamando de tudo. Caso um sistema como o mencionado acima fosse aplicado aqui, só usariam pra olhar as fotos e zoar com a nossa cara. Enquanto nós temos que aguentar críticas de quem se nega a aprender. Como vamos chegar numa agricultura de primeiro mundo com consumidores de terceiro?

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