Não, você não sabe o que se passa na cabeça das pessoas, nem o que as leva às lágrimas durante a noite. Você não sabe de quantos leões por dia elas têm que fugir pra poder sorrir, fazer uma piada, levantar da cama.

Você pode até achar que sabe; a gente sempre acha. Vemos aquela pessoa que brilha de felicidade, ri naturalmente, brinca consigo mesma e com as suas dores, e achamos que ela está indo muito bem. Muitas vezes, somos duros porque não sabemos que ela está morrendo por dentro.

A realidade é que sempre existe alguém sofrendo ao nosso redor, a gente é que não vê. Vemos o que está no semblante, e vemos mal; vemos o que queremos ver, porque dá menos trabalho achar que o outro é forte como pedra, indestrutível, mesmo quando a gente não é. Ninguém é.

Cada um sabe da sua luta e, ainda assim, às vezes nem sabemos de nós mesmos. Somos eternos aprendizes da própria alma e erramos muito antes de acertar; se não conhecemos nossas próprias mazelas por inteiro, quem dirá sermos capazes de julgar quem, ao redor de nós, está destruído.

Ser legal, educado, gentil é, às vezes, um ato de resistência contra a dor que nos corrói por dentro. É preciso fazer força pra não desabar em cima das pessoas. Mas não ter empatia é puxar os outros pra escuridão, e pode ser a diferença entre salvar ou desandar de vez o dia de alguém.

Passo por cima das minhas dores, quando consigo, porque não sei da dor dos outros e não quero ser soma a essa dor. Ninguém merece ser punido pelos meus demônios; seguro-os e evito colocá-los pra fora. Tento não alimentar, também, os demônios de ninguém. Nem sempre tenho sucesso e é bem mais fácil dizer o que fazer, mas continuo tentando porque é isso que posso fazer.

Não sei o que se passa na cabeça das pessoas, ninguém sabe.

Todo mundo devia saber, no entanto, que a dor não tem cara; ela sorri enquanto os olhos pedem socorro, é muda vista de fora, mas vive gritando na cabeça de quem sente. O barulho é ensurdecedor.

Você não sabe o que se passa. Mas isso não quer dizer que você não deva se importar com o que quer que esteja se passando.

Ana Clara Stiehl
Cronista

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