Penso que muitos mais do que poderíamos contar. Deixamos como rastro, acho. Não é que conseguiríamos voltar pelo caminho que já ousamos trilhar; é mais como se fossem migalhas que demarcam o caminho para lembrarmo-nos do que trilhamos. Nosso fio de Ariadne, mas sem a possibilidade de voltar, com o passado segurando a outra ponta.

Como tudo o que fazemos na vida, o átomo que fica é o que resume esse nosso pequeno momento da história. Muitas vezes, será força, alegria, entusiasmo; outras, esforço, empenho, fracasso, desilusão, dor. Todos os nossos pedaços nos ensinam sobre nós; não é porque os deixamos que eles nos abandonam. Talvez seja até o contrário: eles nos abandonam para que sejam lembrados. E os vazios se fazem presentes, como lições que aprendemos.
E como nada fica vazio por muito tempo, concluo que perdemos fatias para encontrar outras. E enchemos os vazios com o que buscamos ou achamos, ao acaso, pelo caminho; nem sempre bom, mas, se serve no buraco, provavelmente necessário para o momento. Uma alma não sobrevive nesse mundo sem cicatrizes e enxertos.

Já deixei por aí muitos pedaços dos quais me orgulho. Não todos, mas mesmo dentro dos ruins houve algo bom como consequência. Acho que sempre há, mesmo que a gente demore para perceber. Será por isso que deixamos a trilha de restos de nós mesmos? Para nos reencontrarmos com o que temos, somos ou fizemos de bom, mais tarde?

Sempre quis saber por que tantas vezes fiquei perdida dentro de quem sou e, tantas vezes mais, incorporei outros pedaços que não eram meus. Incrível que eles hoje são mais eu do que eu mesma. Sempre quis entender por que, depois que encontro minha alma de novo – depois da dor – consigo olhar para o passado com olhos de gavião, procurando dentro dos meus tristes estilhaços qualquer resquício de felicidade. E encontro.

Sempre precisei de explicações sobre por que é que pareço não pertencer a lugar nenhum, mas me encontro um pouco em absolutamente todos os lugares.
Nunca descobri nada disso, é verdade. Mas tenho esperança. Talvez alguém aí saiba para me contar. Talvez algum dia eu perca um pedacinho em que outro se encaixe, perfeitamente, trazendo tudo que eu precise saber. Talvez nunca encontre. Não saber é, ao mesmo tempo, reconfortante e desesperador.

Vou procurar, por aí, em todos os fragmentos que surgirem no meu caminho; vou tentando, ao mesmo tempo, deixar boas lembranças minhas aonde passo. Peço desculpas se nem sempre foram pedaços alegres que me foram arrancados pela vida mas, como soe acontecer, ela é incontrolável e sou um filhote seu, perecível, instável e imperfeita.

Quantos pedaços de mim já ficaram pelo caminho? Quantos de ti?

Ana Clara Stiehl
Cronista

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