Fiquei sabendo hoje que um estabelecimento comercial da cidade fará o “Natal dos esquecidos”, com direito a ceia e troca de presentes. Meu primeiro pensamento foi de descrédito. Afinal, quem quer passar o Natal ou o Ano Novo sozinho ou rodeado de desconhecidos? Instantes depois, o sentimento que tomou conta do meu coração foi o de pena. Pobres esquecidos, pensei.

O fato me lembrou a chegada de 2018 quando, na ceia oferecida por um hotel, vi uma mulher sozinha. Uma bela loira, de quarenta e poucos anos talvez. Ela bebia sozinha e os efeitos do álcool já eram percebidos conforme seu tom de voz aumentava. Lá pelas tantas, perto da meia-noite, enquanto ela conversava com outro “esquecido”, disse – e todos no salão ouviram – a razão de sua solidão em meio a um lugar lotado de pessoas. “Eu sei que a minha filha vai me ligar. Sei que vai”, disse numa pouco convincente convicção. Essa, sim, era uma esquecida. Depois me distraí com os brindes e não soube se a filha ligou. Aposto que não.

Se visse essa mulher hoje na rua, o que é improvável, não a reconheceria. A “maior abandonada” e eu provavelmente não escolheremos o mesmo lugar para virar o ano nunca mais. Mas me pergunto o que se passou em seu destino para chegar àquela cena deprimente. Será que ela, no intuito de dar o melhor à cria, trabalhou horas demais e não lhe ofereceu amor? Ou essa guria teve uma ótima mãe e não sabe retribuir o sentimento? Será que elas eram parceiras da vida, mas na véspera brigaram e estavam apenas sendo turronas? Ou, quem sabe, a jovem teve de fazer uma viagem urgente e tentava, em qualquer lugar do mundo, telefonar à mãe, mas as linhas telefônicas estavam interrompidas?

Tomara que essa “esquecida” tenha sido lembrada. E tomara que os esquecidos daqui liguem para seus pais, avós e amigos com os quais – por qualquer razão – não foram passar o feriado. E, quem sabe, desta ceia inusitada não surjam novos amigos, parceiros, casais e nasçam – porque não?!??! – novas famílias no futuro? Porque, no fundo, o que vale mesmo é ter alguém com quem passar o Natal, ter para quem ligar, de quem se lembrar. Bom mesmo é começar o ano pensando que, se tudo der certo, ele terminará exatamente da forma como iniciou: com a gente cercado de quem ama.

Feliz Natal!

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