O Brasil tem tantos problemas e mazelas que seria demais imaginar que pudesse haver uma compreensão mais clara da importância da cultura ao lado da educação, como possibilidade de, através do conhecimento, proporcionar uma maior liberdade para as pessoas fazerem suas próprias escolhas e dependerem menos do Estado, trilhando seus caminhos com mais independência. Bem liberal isso até né? Entretanto, sempre que houver um centavo de recurso público aplicado em arte-educação, exposições ou manifestações artísticas de qualquer natureza, alguém há de bradar: “tem dinheiro pra isso e não tem pro fulano que passa fome”. E esse argumento sempre terá uma boa dose de razão.
O brasileiro médio talvez nunca tenha sido tão bem representado por um presidente. Conservador, verborrágico, desapegado às liturgias do cargo, com altas doses de preconceito e orgulhoso da própria ignorância. Quando o chefe da nação diz que “não pode admitir dinheiro público para filme pornô” em alusão ao filme sobre a Bruna Surfistinha, a sua compreensão é de que não se deve incentivar um filme que glorifica e faz apologia à prostituição. E, claro, a classe média aplaude esse discurso, fazendo claque ao seu ídolo.
Só que a arte é, entre tantas outras coisas, uma forma de provocar debates e contar a história, que nem sempre se divide tão facilmente entre bons e maus, mocinhos e bandidos, como nos quadrinhos. Para quem viu o filme, o enredo não é uma ode à venda de corpos, muito pelo contrário, expondo a faceta triste de uma vida cheia de excessos, muitas vezes vazia, sob a ótica da própria personagem central.
Um filme como esse, desprezado pelo presidente, gera cerca de 500 empregos diretos, porque é preciso ter figurino, alimentação, transporte, atores, editores, movimentando uma cadeia enorme de profissionais que buscam oportunidades. Pior foi que, dias depois, Bolsonaro admitiu sequer ter assistido ao filme. Ou seja, ele criticou e chamou de pornô (o que evidentemente não é verdade de acordo com a classificação etária e sem cenas de sexo explícito) aquilo que não viu. E foi seguido pela manada que igualmente não viu, não gostou e ataca de crítica de cinema puritana, com a cara da hipocrisia tupiniquim, que rechaça o filme “contra a família” e se esbalda no primeiro prostíbulo da esquina.

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