Entre tantos problemas que a sociedade brasileira enfrenta cotidianamente, há um que merece análise aprofundada e talvez explique o descontentamento da população com as instituições. Falo do abismo que existe entre o povo e os seus representantes. Se o exemplo vem de cima, o escárnio com o dinheiro público nas mais diferentes esferas é um multiplicador da descrença que compromete o respeito à hierarquia e a uma série de serviços prestados. E nem entro no mérito da relação custo-benefício, me atenho exclusivamente ao custeio mesmo.
De acordo com levantamento da União Interparlamentar, organização internacional que estuda poderes legislativos em diversos países, divulgado no ano passado, o Brasil tem o segundo parlamento mais caro do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. São cerca de 4,4 bilhões por ano gastos com deputados e senadores. DE DÓLARES. Já segundo a ONG Contas Abertas, as duas casas legislativas custam por dia o equivalente a R$ 28 milhões. Ainda de acordo com a ONG, deputados federais chegam a contratar 25 assessores e, no caso de senadores, o número pode chegar a 100, para cada um. Por critérios de proporção, 513 deputados e 81 senadores não chegam a configurar um exagero, considerando o tamanho do país. Entretanto, penduricalhos, como esse número excessivo de assessores comissionados diretos, é que tornam o Congresso tão oneroso.
No mês passado, teve grande repercussão uma licitação do Supremo Tribunal Federal prevendo a contratação de “serviço de fornecimento de refeições institucionais” a um custo de R$ 1,134 milhão. Entre os itens exigidos, medalhões de lagosta e vinhos “que tenham pelo menos quatro premiações internacionais”. A notícia repercutiu tão negativamente que o Ministério Público da União pediu a suspensão da compra. O subprocurador-geral do Ministério Público junto ao TCU, Lucas Rocha Furtado, escreveu o seguinte. “…os requintados itens que compõem as tais ‘refeições institucionais’, previstos no Pregão Eletrônico 27/2019, contrastam com a escassez e a simplicidade dos gêneros alimentícios acessíveis – ou nem isso – à grande parte da população brasileira que ainda sofre com a grave crise econômica que se abateu sobre o País há alguns anos”.
Há quem entenda que vereadores, ministros, políticos em geral deveriam trabalhar de graça. Discordo totalmente desta perigosa armadilha populista. Políticos merecem ser bem pagos para serem cobrados por produtividade e dedicarem-se exclusivamente às suas funções. O que precisa diminuir é esta distância entre o mundo real e os que nos representam. Entre o barraco e o palácio. O uniforme e a toga. O pão nosso e a lagosta.

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