Na última terça-feira, assistimos à foto de malas repletas de dinheiro vivo em um apartamento que seria utilizado pelo ex-ministro Geddel Vieira Lima. Talvez a imagem mais icônica de todos os tempos sobre a corrupção no Brasil. Ali estava materializado, tangível, palpável, o que nos parece abstrato diante da banalidade que virou o mau uso de recursos públicos no país. No mesmo dia, o magistério gaúcho resolveu paralisar as aulas e foi além. O humilhante depósito de apenas R$ 350,00 virou caso de polícia, com os educadores fazendo um boletim de ocorrência contra o governador Sartori.

Eu sinceramente acredito que o governador do Estado não faz de propósito. Ao menos, quero dizer que ele não levanta todos os dias, se olha no espelho e diz “hoje eu vou sacanear meus funcionários”. Claro que não. Os parcelamentos são apenas a ponta final de décadas de problemas estruturais empurrados com a barriga, somados à falta de coragem e competência que os inquilinos do Piratini revelaram pelo menos nos últimos 30 anos. A responsabilidade, portanto, é de quase todos os principais partidos políticos que direta ou indiretamente estiveram no governo. Do Sartorão, o que poderíamos exigir é que tirasse o Estado do atoleiro, afinal, foi eleito para isso em mais uma disputa em que os discursos maquiados se igualaram para garantir a vitória, em última instância, o poder.

Curiosamente, esses discursos sempre colocam a educação como prioridade. Se tivéssemos homens de palavra, o Estado hoje seria uma Coréia do Sul em matéria de ensino. Mas não. O que era ruim, piorou. O salário defasado foi parcelado. E os pagamentos foram alargados em parcelas cada vez mais diluídas. Qual será o próximo episódio? Antes que ele seja exibido, os professores reagiram com o que ainda lhes resta de força. Não há mais o que cobrar dos nossos educadores. Eles não podem fazer mais nada. A condição que lhes foi imposta é indigna. Desrespeitosa. Aviltante.

As cédulas das malas mostram apenas o que nos salta aos olhos. Há muito mais. Ali estão os recursos que causam a tal falência do modelo de Estado em curso no Brasil. Dentro das malas, se esconde a cara de pau e a hipocrisia de quem defende cortes na cultura e no setor público “para sanear nossa gestão”. Sob os montes de notas de R$ 100,00, há risos irônicos. Dos que se locupletam e saqueiam uma nação inteira. E que empurram os professores das salas de aula para a delegacia. Só lhes resta o protesto. O grito. Enquanto ainda encontram ouvidos. Enquanto ainda vive um sopro de esperança por dias melhores.

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