Silvio Santos é um gênio como comunicador e empreendedor. A vida do filho de descendentes judeus (mãe grega e pai turco) que foi camelô e construiu um dos maiores impérios de comunicação no país, ainda atuando em áreas como cosméticos e títulos de capitalização, já virou tema de escola de samba e com toda a razão. O homem do baú é uma das figuras mais conhecidas da televisão brasileira e aos 87 anos segue todos os domingos entrando nos lares de pessoas que se divertem com distribuição de dinheiro, perguntinhas bobas e piadas infames. Ele faz as mesmas coisas há décadas. E aí que ele, tão esperto com os negócios, se complicou com as próprias palavras.
Silvio já coleciona bobagens ditas ao longo de quase 50 anos no ar. A última envolveu a Cláudia Leite, mas ele já foi inconveniente com crianças, mulheres, negros, homossexuais. Só que até algum tempo, a repercussão era mínima. Primeiro, porque os canais de repulsa eram muito mais limitados. A razão, principal, entretanto nem é essa. Ocorre que antes éramos mais condescendentes e aceitávamos numa boa. Manifestações machistas, homofóbicas ou de qualquer outro tipo de intolerância e desrespeito provocavam risos e constrangimento. Agora não mais. Há quem diga que estamos mais chatos. Penso que estamos mais sensíveis, nos colocando no lugar do outro.
Colocar-se no lugar do outro também implica em entender o próprio Silvio. Uma criança criada na década de 30 do século passado aprendia que família é homem, mulher e quantos filhos Deus mandasse; a mulher tinha seus deveres de esposa e deveria cuidar do lar, cabendo ao homem o sustento; homossexualidade era doença e coisa de gente sem-vergonha; não se falava em empoderamento, homofobia, igualdade de gênero. As relações eram muito mais verticais, aquela coisa “manda quem pode, obedece quem precisa”. Sem contestações.
Não quero aqui defender Silvio Santos nem me somar ao tribunal inquisitor da internet, até porque obviamente ele não precisa disso e o que eu penso não faria nenhuma diferença. Apenas me atenho a um ponto. Precisamos lembrar que este talvez seja o maior conflito de gerações da história recente, onde as transformações sociais modificaram as relações familiares, de trabalho e forma de relacionamento entre as pessoas. Um homem de 87 anos precisa entender que o mundo hoje definitivamente não é mais o mesmo. Com certa relutância, há algum tempo Silvio percebeu que aquele microfone pendurado com um suporte na altura do peito não faz mais sentido. Parece mais difícil sacar que as mulheres não aceitam mais serem tratadas como objetos.

Deixe seu comentário