Por um conjunto de razões e fatos, percebemos que o mundo, nos últimos anos, tem dado uma guinada reacionária, contrapondo conquistas progressistas e liberais que buscam readequar as leis aos costumes que, sabemos, são mutáveis e acompanham as transformações sociais em qualquer lugar do mundo. Mudanças são intrínsecas à natureza humana e que bom que assim é. A história é composta por períodos que ciclicamente se alternam, de acordo com as vontades humanas.
Todavia, há páginas que pensávamos definitivamente encerradas e que perigosamente voltam a fazer parte do nosso cotidiano. E nunca é de uma hora para outra. Começa sempre a passos muito lentos, até ganhar forma, corpo e volume. Hoje, há uma clara relativização dos movimentos ditatoriais que, em décadas passadas, suprimiram direitos civis e impuseram goela abaixo, com armas e sangue, o poder de uns poucos em detrimento de povos e nações. Seja de esquerda ou direita, os tiranos sempre contaram com algum inimigo a ser combatido, como forma de justificar e unificar um discurso, construindo uma unidade nacional.
Dentro desse contexto, somado a peculiaridades nacionais como o avanço de representação do extremismo religioso, embora não chegue a surpreender, devemos prestar atenção às recentes tentativas de censura por parte da presidente do legislativo de Porto Alegre, no caso de uma exposição na Câmara Municipal; bem como do prefeito do Rio de Janeiro na Bienal do Livro, devido a uma revista em quadrinhos que continha um beijo entre duas pessoas do mesmo sexo.
Não é a arte que está censurada. Não são os quadrinhos, os livros, as charges. Pontualmente, hoje são. Só que quando o livre pensamento é de alguma forma tolhido, constrangido ou ameaçado por força de qualquer natureza, não são os artistas e nem mesmo o público que queria observar as exposições que são prejudicados. A ameaça é ao Estado Democrático de Direito. Ao direito de escolher o que queremos ver, ouvir e sentir, para pensarmos como quisermos. Quem censura castiga a liberdade. Impõe sua vontade. E escolhe seus argumentos para embasar a violência. Hoje verbal, amanhã física. E nessa toada, não faltarão vozes para dizer que “foi merecido”, “era necessário”. É triste, mas a história se repete, é cíclica…

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