Em 26 de dezembro de 1999, a edição do Fantástico trazia à tona revelações confessionais do último presidente do Regime Militar, João Baptista Figueiredo, em momentos de descontração. Uma fita (sim, na época eram fitas VHS) continha gravações com declarações dadas em um churrasco em Paraíba do Sul, interior do Rio de Janeiro, em 10 de setembro de 1987, na casa do empresário Rogério Onofre. Tomando “uma coisinha”, o general-presidente revelou bastidores do poder, relações com grandes empresários e políticos e, em dado momento, relatou que, em visita à Bahia, foi obrigado a tomar diversos banhos para tirar “o cheiro de crioulo”, após calorosos abraços recebidos.
Segundo o Atlas da Violência 2018, elaborado pelo Ministério da Saúde, entre 2006 e 2016, o índice de homicídios no Brasil diminuiu 6,8% entre a população não negra. Já quando são analisados os dados envolvendo negros, o mesmo gráfico aponta aumento de 23,1% nos assassinatos. Ou seja, não é preciso ser nenhum especialista em segurança pública para observar duas coisas simples. Brancos estão morrendo menos e pretos estão morrendo mais por causas violentas no nosso país.
O Departamento Penitenciário Nacional revela que a população carcerária brasileira quase dobrou nos últimos 10 anos. São mais de 750 mil presos, 64% deles negros. A pesquisa nacional por amostra de domicílios (PNAD) de 2017 esmiuçou indicadores que atestam a profunda desigualdade definida pela cor de pele no país. A renda média do salário é de R$ 1.570,00 para negros e R$ 2.814,00 para brancos. Ainda, a taxa de analfabetismo é mais que o dobro entre pretos e pardos (9,9%) do que entre brancos (4,2%), de acordo com a PNAD Contínua de 2016.
Os 80 tiros que fuzilaram Evaldo não erraram o alvo. Na era do negacionismo, há quem negue a ditadura, a tortura, o racismo, a homofobia. Pode ser por ignorância, má fé ou cegueira seletiva. Agora, o cheiro, esse é mais difícil de esconder. Afinal, neste país tropical, abençoado por Deus e contraditório por natureza, esse cheiro de quem até pouco era escravizado se mistura com pólvora e sangue; com preconceito e hipocrisia. Figueiredo não disse “nada demais”. É assim que pensa boa parte dos brasileiros. Só não foram gravados.

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