Alguns pararam por um minuto seus carros no acostamento para secar as lágrimas, outros saíram de suas mesas para chorar no banheiro. Houve os que ficaram chocados. Os que, incrédulos, emudeceram. Houve até (sempre há) os poucos parvos que exclamaram “bem feito!”
O ano novo, que sempre nasce carregado de esperanças, tem se mostrado sinistro no seu engatinhar. Assusta ver algo tão jovem arrastando tantos mortos, até lembrarmos que nada é novo. A nossa esperançosa contagem de tempo é o mesmo velho arrastar dos dias, a mesma avalanche do descaso que soterra e queima inocentes, o longevo acaso que derruba aeronaves e que vem estraçalhando famílias dias e dias afora. Criamos débeis justificativas, motivos e crenças para não olhar para o lado e encarar nossa velha companheira, a finitude. Entre as poucas atitudes que podemos ter frente a isso estão: gritar, falar, denunciar, alertar.
E aí, morre uma voz. E ficamos encarando um silêncio negro que ocupou o lugar do brado que todos dias era companheiro no banco do carro, nos fones de ouvido, no radinho velho e nos modernos computadores.
Calou-se o “pau que que batia em Chico e também em Francisco”. Quem ficará com a gente até nove e qualquer coisa da manhã, denunciando, batendo, opinando, sendo a nossa voz?

“É cousa tão natural o responder, que até os penhascos duros respondem e para as vozes têm ecos. Pelo contrário, é tão grande violência não responder, que aos que nasceram mudos fez a natureza também surdos, porque se ouvissem, e não pudessem responder, rebentariam de dor”
Padre Antônio Vieira.

Calar é um tipo de morte, saber ouvir e o momento de falar é sabedoria. O silêncio aconselha, a voz manifesta. O silêncio que ficou esta semana aconselha a seguir adiante, o exemplo que se foi pede para ser seguido, clama por não calar diante das injustiças, dos desmandos e das barbáries. Ele pede, encarecidamente, para buscar nas fontes, para não levar adiante versões mentirosas, e quando errar, humildemente se retratar.

“Paz sem voz  não é paz, é medo!”
Marcelo Yuca/O Rappa

Mais uma voz, entre tantas, que este ano calou.

“A imprensa noticia vandalismo, pois gera medo. O medo faz com que as pessoas fiquem em casa. E pessoas com medo não mudam o país!”
Ricardo Boechat

Segunda-feira o Brasil ficou novamente em luto. E mudo.

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