Parado, esperando a fila do pão andar, agora na rua e de máscara, não pude evitar o estranhamento. Até porque a rotina tem sido estranha. Aproveitei para olhar a mesma paisagem que conheço há décadas.
Não me dava esse tempo de observar a monotonia do familiar há outro tanto de tempo.

Me remeti a outros lugares não familiares. Já esperei nas filas de pão em paragens distantes, desconhecidas e para os quais nunca irei voltar. Nessas ocasiões, tudo era novo e eu observava com avidez. O jeito das pessoas, a sujeira ou limpeza das ruas, os sotaques, idiomas. As roupas, chapéus, a pobreza, que tipo de lixo tinha nas lixeiras e nas ruas, as músicas nos carros e botecos, que cerveja bebiam, em que tipo de copos. Reter lugares raros e novos é um instinto do viajante.

De volta à mesma fila, olhei os conhecidos e bagunçados fios pendurados nos postes. Uma feiura bela, pareciam um esboço. Observei os tipos de ladrilhos de cada calçada, acho que cada tipo de revestimento diz um pouco sobre quem mora ali. Não tinha me dado conta do tamanho daquele terreno baldio e da árvore, quase solitária, que já observa o mundo desde bem antes de mim. Olhei os tipos de lixo, as roupas, os tipos de máscaras (como os ladrilhos das calçadas, elas também dizem um pouco sobre seus donos). Chegou, para se juntar à fila do pão, um casal em um carro bem velho, de pintura rota com uma surpreendente boa música no toca fitas. A máscara dele preta, a dela, branca. A cada olhada, tudo ganhava novas nuances.

Parei de olhar e comecei a ver. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”, como não lembrar de Saramago?
Recuperei o instinto do viajante sem sair de casa, o raro e o novo estão no tempo que se dá ao olhar.

Diferente do turista, que vai de arrastão, absorvendo rápido, fazendo fotos, acumulando poses e hashtags, consumindo, esbanjando recursos e economizando vivências, o viajante vai com mais calma. O viajante também fotografa com a memória e dá o tempo para as imagens se revelarem. O viajante é menos vaidoso que o turista. O viajante quer o caminho, o turista quer o lugar. O turista vai, o viajante jamais volta e por isso revê o mesmo e nele descobre o novo.

Esta pandemia me fez ver mais do mesmo, estavam todos ali, mas de máscara. Estava tudo igual, mas com um clima de medo e dúvida. Vi que o sol estava descolorindo as lombadas dos meus livros. Percebi mais amor no convívio. Vi ruas que nunca tinha visto desertas e vi desertos em mentes que considerava férteis. Vi que a aridez se cria do medo. Também vi fortaleza em olhos que se mostravam frágeis.
Quero sair dessa menos turista e mais caminhante, até porque, a vida é uma viagem.

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