Quando sentiu o fio gelado da falcata abrindo-lhe a carne, tendões e veias do pescoço, seguindo caminho sem resistência pelo peito, varando a pele e o nobre couro que a cobria, pensou: não há fim mais óbvio para alguém que viveu como eu.
Após tantas glórias em batalhas, uma escorregada na lama tirou o escudo da posição, abrindo flanco para a temida lâmina ibérica. Dizem que o aço fica enterrado por três anos para que a ferrugem consuma as partes fracas e só a melhor forja sobrevive, carregando o destino de abrir sulcos e dar liberdade ao sangue dos corpos inimigos. Era a primeira vez que se via como inimigo. Sempre, para si, fora o herói. A morte, dizem, traz consigo revelações de última hora.
O entardecer já pintava as nuvens de vermelho. Enquanto bebia o próprio sangue lembrou que ouvira na noite anterior sobre a crença dos inimigos nestes céus rubros. Os íberos acreditam que os crepúsculos vermelhos são o sangue de seus guerreiros mortos subindo aos céus.
Eles devem estar fazendo alguma espécie de reverência ao céu agora, pensou, enquanto morria.
E o seu sangue agonizante? Teria o mérito de subir àqueles deuses, por morrer sob a lâmina sagrada? Ou deveria bebê-lo todo, até engasgar de forma infame? Alugara sua espada a tantos povos que já nem sabia mais para quais deuses lutava. O corpo sentia frio. Estava perto do fim, já ouvira sobre este frio da boca de outros moribundos. Estar de pé diante de um quase cadáver, é uma visão bem diferente de ver o céu a partir do chão, com esse gosto de ferrugem na boca.
Pensava no passado e no paraíso. É o que resta a quem estrebucha. Lembrou das mulheres que estuprara e nos covardes que fizera sangrar na faca curta, aquela de ver nos olhos a dor que impinge nas entranhas. Sempre foi bom matar devagar, agora morria devagar com este céu de sangue como testemunha. O céu também sangrava por ele e o paraíso o esperava, com infinitas mulheres para estuprar e infinitos covardes para estripar. Nada menos mereceria um guerreiro do seu quilate. Se assim não fosse o paraíso, de que valeria morrer? Claro! Há também o vinho infinito e a eterna música.
Teve sorte. Não precisou assistir os abutres e chacais comerem suas carnes ainda meio vivas, não teve uma lança atravessada no abdômen, não foi capturado, escravizado nem empalado.
Fez sua prece à Marte, o deus que lhe parecia conveniente agradar naquele momento. Agradeceu por partir em tão boa sorte. E aquele céu. Que céu!
Quando os abutres e chacais chegaram, as pulgas saltaram do corpo frio para seus novos hospedeiros. O dia era emoldurado por uma abóbada cinza e reinava um silêncio putrefato. Foi só mais um dia comum nessa história que compartilhamos. Um dia como hoje, no qual cabem todas as histórias.

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