Um dia, um certo senhor Benedito sentou-se na varanda e passou a admirar o crepúsculo. Caiu-lhe à mente a pergunta: “O que é a vida?” Outras vezes já se perguntara, mas desta vez, na varanda, diante do crepúsculo, a pergunta veio com o peso de um destino. Não era simplesmente um questionamento fortuito, era um sentimento que precisava ser preenchido como se até agora estivesse guardando vácuo.
O que é a vida? Angustiado, um certo senhor Benedito.
Só o homem pode fazer esta pergunta, só este ser confuso possui a maldição da consciência que transborda em perguntas sem resposta.
Seria a vida um fenômeno comum? Resultado óbvio do tempo infinito e da interação aleatória das partículas que a tudo formam? Ou seria obra da divina criação, como tanto pregam os padres e louvam os beatos?
Um certo senhor Benedito leu um dia, num Almanaque Biotônico Fontoura, que alguém teorizou que se colocassem infinitos macacos em infinitas máquinas de escrever, por tempo infinito, algum dia um deles escreveria a Ilíada de Homero. O senhor Benedito ia na igreja aos domingos e rezava, mas em segredo pensava que tinha dúvidas.
O que é a vida?
O gato deitado sobre a pilha de lenha não se perguntava o que é a vida. Dormia, lambia o saco, espreguiçava-se e voltava a dormir enrolado. Nem do crepúsculo ele tinha consciência.
Não seria a pergunta certa: “O que é a consciência da vida?” Mas a consciência da vida não pode ser a própria vida, pois o gato não tem consciência, mas tem vida.
Um certo senhor Benedito foi pegar uma certa garrafa, para ver se os pensamentos amoleciam.
E por que esta inquietação? Por que não podia, como o gato, o certo senhor Benedito viver sem respostas?
Por que essa pergunta ia e vinha, e agora, com tanta força? Seria o perguntar uma doença do sistema nervoso? Seria o acreditar, a cura? Seria a dúvida um efeito colateral da inteligência? Seria este mundo, esta vida, aquele crepúsculo, que agora era noite, o mesmo para as outras mentes atormentadas por perguntas?
Lembrou de uma certa tia que enlouqueceu. Ela tinha outro mundo dentro da cabeça, em um mundo onde todos à sua volta tinham este. Este? Quem poderia garantir que este certo senhor Benedito não era o louco que se perguntava o que é a vida, vivendo em mundo do qual não tinha consciência? E que sonhou que tinha uma tia louca para se convencer que era o lúcido senhor Benedito.
Um certo dia, uns amigos em visita viram o gato faminto, a garrafa vazia e o morto senhor Benedito. No velório, beberam o defunto, contaram histórias e piadas. No outro dia, haveria as rezas e as coisas práticas da vida.
Sentados em frente ao caixão, os amigos viam o crepúsculo emoldurado na porta larga. O que é a vida? – perguntou um deles.

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