É domingo, acordo antes de todos. Em fins de semana, esta é uma tarefa fácil. Passo o café, abro uma porta, é convite para o sol entrar. Não é educado com grande astro deixar seus raios intimidados pelo vidro.

Só uns pássaros e alguns carros estão agitados, os cães dormem. Nem parece inverno, o dia está claro e morno e há até uma brisa, emprestada da primavera. O inverno quer uma folga. Todos merecem um bom domingo. Não sei se o café ou a leitura de Rubem Braga, ou os pássaros ou a folga, o silêncio, a primavera de inverno, ou tudo junto, mas tive súbita vontade de escrever. Por algumas horas, colocarei em uma caixa fechada os afazeres da próxima semana. Os problemas, os desafios, as metas e os boletos, tudo é da semana. Todos merecem um bom domingo.

Mais tarde, farei o churrasco e, enquanto assa, desenharei as charges semanais e esboçarei algumas ilustrações. Mas estas são tarefas da semana, não do domingo, pensará o leitor. Este texto também é uma tarefa da semana. O churrasco, este é um afazer do domingo. Quem pára tudo numa quarta às onze e meia da manhã para fazer um churrasco e tomar uma cerveja? Alguns podem, invejo-os com todas as minhas forças. Os desenhos, os textos e as leituras têm seus resultados na semana, mas são prazeres dominicais. De tudo que farei hoje, assar carnes será a atividade mais parecida com um compromisso. A fome determina o prazo de entrega.

Nas semanas, muitos são tragados pelo fluxo insano. Culpa dos desejos. Mérito das posses, se apossarem assim tão eficientemente do tempo e das almas. Um bom domingo. Só pra não surtar e continuar com o bom comportamento na prisão dos desejos. Todos merecem um banho de sol no pátio, não é educado com grande astro admirá-lo apenas através de grades.

Em todo cárcere há sempre um plano de fuga. Um túnel cavado a colher, um corroer paciente de grades, o suborno e morte de guardas. Em todo plano de fuga há o temor latente da morte, ou pior, do aumento da pena. Planos de fuga, fugir pra onde? Em todo cárcere há arrependimentos, ódios e esperanças. Alguns prisioneiros escrevem cartas para ninguém, outros desenham nas paredes. Não o fazem por compromisso, fazem por liberdade.

Alguns prisioneiros fazem exercícios e se fortalecem, talvez por sobrevivência, ou pensando numa vingança futura, querem libertar-se de uma fraqueza ou de um tormento. Outros simplesmente se entregam às grades.

A liberdade total é um mito, mas depois de muitos crimes, surras, fugas, motins, adquirimos o direito de viver uma boa vida no semiaberto.

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