Eu tropecei e vi, sem querer, debaixo da fumaça. Eu nem sabia que era fumaça. Respirava aquilo como se dela dependesse a vida. Bendita queda. Aqui embaixo é mais claro, não sufoca. Daqui posso ver que antes não via, não respirava. Lá em cima, quanto mais pra cima, mais fumaça. O que queimam? O que tanto queimam? Daqui eu vejo! Claro! Do chão é mais claro.
São cortinas, várias cortinas de fumaça. Lá, logo atrás do último véu, posso ver uma criança. Deitada. Ela tem uma bala na cabeça. Que tiro foi esse! Certeiro! Bem no meio da esperança. Tem muito sangue. Não dá pra ver direito, nem deveres, mas se sabe, se sabe que tem mais. Tem muito sangue. Tem muita fumaça. Tem que ter mais crianças com cabeças estouradas.
Por que ninguém deita? Por que nenhum tropeça e fica? Aqui! Aqui no chão! A criança com a bala na cabeça! Por que respiram e fazem tanta fumaça? O que queimam?
Daqui posso ver, tem a fogueira dos defensores do salvador. Eles queimam pneus, eles têm olhos vermelhos. Eles respiram, comem e vomitam suas chamas. Eles jogam a sua fumaça nos outros. Os defensores do mito messias também ardem outra fogueira. Eles queimam paus, pedras e livros de história. Jogam tochas em quem não respira sua fumaça.
Tem a fogueira dos que se escondem no morro, eles queimam ônibus e corpos. Eles atiram, eles têm fuzis e colocam balas em cabeças. Eles vendem diversão em várias embalagens.
Uma outra fogueira, mais afastada, é do pessoal da paz, queimam ervas. E eles dançam. Não jogam nada em ninguém, não fazem nada, só tragam.
E tem a bela fogueira dos vaidosos. Era essa que eu alimentava!
Uma chama enorme vem do planalto, lá queimam dinheiro e futuro. Já é quase uma explosão, perderam o controle. Aqueles já não sentem nem se importam com suas peles torradas.
Contam que o fogo foi um presente roubado dos deuses, deve ter uma maldição. Um roubo não é um bom começo. O mesmo fogo que cozinha nosso alimento, nos consome, cega e sufoca. Junto com o fogo que dominamos veio o fogo da alma, este sim, não aprendemos a controlar. Este nos incendeia por dentro, nos faz estopim e combustível. Nos reduz a cinzas.
Está tudo cinza, tem muita fumaça.
Todos olham, mas ninguém vê. As crianças, com balas na cabeça. Ninguém vê a mãe desesperada. É invisível a menina estuprada. A agonia daqueles coitados. Ninguém vê nada, só olham e inalam e alimentam seus fogos. Daqui do chão posso ver. Tem muitas fogueiras, muita fumaça. Por que tanto ardem? Por que tão pouca ordem? Por que não jogam baldes de água? Estou cansado. Acho que ficarei aqui e me deixarei pisotear.

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