Um dia percebemos a existência do tempo, então colocamos ponteiros nele. O dividimos em partes menores, para facilitar sua conquista. Definimos períodos em que cada tipo de atividade deveria ser exercida e colocamos alarmes para nos avisar do fim e do começo de cada uma. Criamos quadros com divisões lógicas, ornamentados por números que ligam e desligam os vários tipos de pessoas que somos durante um dia.

Às seis, o alarme avisa que está na hora de ligar a pessoa-trabalho, com direito a um breve período de abastecimento de nutrientes e informações diárias, antes da máquina estar a todo vapor.

Ao meio-dia, legiões são despertas para tornarem-se pessoas-buffet, com algum convívio social de sobremesa.

Conquistada uma certa liberdade organizacional, vamos sendo as pessoas-happy hour, as pessoas-fitness, as pessoas-amantes, família, pessoas-sono, sob os reflexos condicionados das sequências de notificações, eletrônicas ou adestradas. Aos fins de semana e feriados, desligamos os alarmes ruidosos, mas há os silenciosos, instalados em nosso sistema, que nunca desligam. Alguns vêm em intervalos longos, mas sempre certos. A época de fazer uma grande festa carnal e nos tornarmos pessoas-folia, época das pessoas-reflexivas que celebram renascimentos, o período que dita a lei de comer um só tipo de carne, o dia que comemoramos o trabalho sendo pessoas-ócio, o tempo de lembrar os mortos, quando nos tornarmos pessoas-saudade, e finalmente, no final do grande ciclo no qual enquadramos o tempo, seremos pessoas-amor-ao-próximo. Para todos os outros dias-a-dias, os contratempos.

Somos criaturas que se alimentam do hoje, só ele tem real sabor. Por isso temos dificuldade em planejar e iniciar projetos cujo deleite é uma promessa futura. Tempo futuro é insípido, tempo perdido, amargo.

Na Física, o tempo é uma medida de transformação, se nada muda, o tempo é desnecessário. O tempo é o ser em movimento. Quando deixarmos de ser, ele nos deixará.

Um aceno pode ser olá ou adeus, o tempo é quem define. Ele é nosso senhor e nós tivemos a ousadia de medi-lo e enquadrá-lo. Definimos os números que o medem, desenhamos os quadrados lógicos e as linhas para o tempo fluir.  No entanto, somos lápis, o tempo, a borracha. O tempo ri de nossa ousadia, um riso paternal de quem se diverte ensinando a criança.

Se você perguntasse ao tempo como seria a melhor maneira de aproveitá-lo, ele diria:
– Tente não viver por ponteiros e quadrados definidores. Adquira sabedoria e faça uma boa escolha, para que tudo que você faça, seja tudo o que você é, o tempo todo.

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