Quando eu tinha vinte e pouco anos, o Volkswagen Santana era o carrão dos ricos. Recém lançados, os poucos que tinham, chamavam atenção. Ao sol da meia tarde de verão, na pacata rua da pacata cidade, vi passar, reluzente, aquele Santana azul marinho. Primeiro, desejei-o, em seguida espantei-me! Vi que o possante era dirigido por um senhor negro.
“Como assim? Deve ser roubado! Ou, deve ser o motorista de algum bacana.”
Pensamentos adestrados no canil do preconceito.
Espantei-me com meu espanto. Eu acabara de perceber que era racista e preconceituoso. Um turbilhão de lembranças invadiram minha mente. Quantas vezes ouvi de conhecidos mais velhos seu asco, justificado pelo Darwinismo social, pelos negros. Lembrei das vezes em que presenciei cenas “normais” de separação de pessoas em grupos de acordo com a paleta de cores e classes sociais.
Das dezenas, melhor, centenas de vezes que ouvi “fez trabalho de negro” quando um branco fazia algo mal feito. Do nojo, expresso sem cerimônias, quando uma mulher branca se casava com um afro. Lembrei também de como colegas de escola negros e um, que teve a coragem de se assumir gay, eram tratados. Vi o que se tornaram. E das piadas de Hitler, judeus e africanos. Tudo muito inocente, brincadeiras que moldaram minha mente até ela culminar no espanto com o motorista negro no carrão de brancos.
Nessa época, o preconceito já era sutil nas cidades, mas nas comunidades do interior, ainda evidente e declarado, estimulado pelo espírito de grupo e por uma espécie de bairrismo que servia para dar um verniz na grossa casca de racismo cultivado por gerações. Eu estava nesse caldo e devia ficar atento aos resquícios de intolerância que o ambiente me imprimia.
O Santana afastou-se e eu fiquei parado, me enfrentando, encarando uma face nojenta recém revelada num ato falho íntimo, em frente ao espelho da minha consciência. Foi como se descobrisse que eu era alcoólatra ou viciado. Precisava encarar o problema, me conscientizar e lutar todos os dias contra a doença.
Desde então tento olhar para as pessoas com transparência. Os maltrapilhos, os mal vestidos, os tatuados, os cabeludos, os viados, os artistas vagabundos, os esquisitos, os mal letrados, os alemães azedos, os favelados, os vileiros… São tantos rótulos, tantos envoltórios que servem para catalogar cada um no seu espaço na gôndola. Quero ver só pessoas. Eu tento, mas às vezes julgo. E percebo. E lá está o garoto de vinte e poucos anos parado na calçada.
Nesses momentos visualizo o Santana azul e repito: “Eu ainda sou preconceituoso, mas só por hoje. Amanhã, menos.”

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