Estou preocupado em como interagir pós pandemia. Alguém saberia me dizer se as expressões “Bom dia”, “Boa tarde” e “Boa noite” já foram sequestradas por alguma ideologia?
Imagino-me num belo sábado de sol, sem máscara e vacinado: “Bom dia!” e ter como resposta: “Lulista comuna do inferno! Vai dar bom dia em Cuba!” 

Ou quem sabe no bar: “Boa noite!” – “Como podem estar boas as trevas nas quais teu presidente nos colocou? Bolsominion Fascista!”
Dizem que sou exagerado, mas se um nome de remédio virou brado ideológico, a coisa vai descambar. Veja as palavras que parecem neutras, mas o acompanhamento as revela:

 “Fechado”, por exemplo. Se for “fechado com” é Bolsonaro, se for na plaquinha da porta comercial “estamos fechados”  é Lulista-comunista-vagabundo. 
“Livre”. Se estiver em “Sou livre para pedir intervenção militar!” é do mito, se for “Lula livre!” está óbvio.
Os linguistas do futuro terão trabalho para explicar que uma palavra movimentou forças extremamente opostas só por estar associada a um militar ou a um molusco. 

A expressão “tem razão”, se vier precedida de “Olavo”, “Presidente”, “Bolsonaro” ou “Mito” é negacionista terraplanista fascistóide. Já  se vier acompanhada de “ciência”, “imprensa”, “Globo”, ONU, OMS, é comunista mentirosa golpista. “Golpista” anda indefinida, ora de um lado, ora de outro, logo é isentona babaca e covarde.

Sequestros linguísticos começaram inocentes, pegaram “companheiro” e “camarada” para designar os idealistas da esquerda. Dizem que não foi sequestro, vieram livremente, engajadas na causa. Acho uma pena, principalmente por “camarada”, que tem sentido amplo e é substantivo de dois gêneros, mas usá-la nesses tempos é risco. Isso sem falar no sequestro da cor vermelha, que levou junto seu substantivo e logo virou adjetivo: “Seu vermelho!” 
A estrela também foi cooptada, mas essa sempre foi fisiológica, está na bandeira dos EUA, na da China, na do Brasil… estrela é Centrão.

Aí vieram “mito” e “messias”. Quando percebemos, já estavam vestindo a camiseta da seleção (que tem estrelas). Como os professores de história, filosofia e psicologia poderão usar “mito” com segurança? Aliás, professores terão seguranças particulares nas aulas presenciais. E o pobre padre que deixar escapar um “messias”? Posso até ver a manchete: “Padre louva o Messias como exemplo de tolerância e é espancado por cristãos Mortadelas raivosos.” 
A propósito, quando for comprar embutido cárneo fatiado. peça presunto ou apresuntada, nunca se sabe a ideologia do atendente. Vai que se ofende.

Quanto mais penso no assunto, mais fico alarmado: “Terra” se vier acompanhada de “plana” ou “Osmar”, “Bolso” como apelido carinhoso do “Coiso”, “B”, “Democracia” (coitada, essa é sequestrada e estuprada faz tempo). “Gado”, os simpáticos “Minions”… Sabe-se lá quantos vocábulos ainda serão sequestrados nessa onda de ideologias violentas e violentadas.
Como defesa, amplio meu vocabulário. Quando tiver que falar “mito” no sentido original, usarei “simbólico-imagético”. Quando for me referir à lula das profundezas oceânicas, vou usar “Teuthida”. 

“Bolso” será um problema, não há sinônimo bom. Se falar “algibeira” me transporto alguns séculos no passado, o que não estaria de todo errado.
Ter um bom vocabulário será questão de sobrevivência. Ou isso, ou calar-se para sempre, um “lockdown oral”, o que me parece ser uma excelente ideia.

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