Faz uns trinta anos, alguém que não lembro disse que o sofrimento não agrega valor a um trabalho. Ninguém iria me pagar a mais se houvesse sofrimento na tarefa que desempenhei. A medida de valor é o resultado.
Isso me marcou, pois tinha orgulho do quanto sofria nos processos de produção de qualquer atividade. Na minha infância e adolescência, sempre que ouvia de um adulto “aquele ali é muito trabalhador”, se referiam a um pobre sofrido de mãos grossas, corpo arquejado e olhar esgotado, ou a um enérgico e empolgado senhor que jamais tiraria férias.
Este era o script que eu seguia e, em parte, ainda sigo. Consegui me livrar do sofrimento, desenvolvendo habilidades e reconhecimento nas áreas de que gosto para não ter que fazer o que não gosto.
Ainda travo uma luta com o tempo e os prazos, resultado da mania de fazer coisas demais. A diferença é que esta luta não me amarga, empolga.
Não dá para pensar numa sociedade melhor sem passar pelo trabalho e pelo sofrimento diário de quem não vê perspectiva além de achar normal a dose crescente de sofrimento e falta de propósito. Quantos vivem na escravidão assalariada? Ao viver oprimido por seus próprios valores, cria-se a prisão mental. Prisão e opressão tendem à revolta e ao surto.
Dentro dos carros, a pressa e a impaciência. As notificações de mensagens no celular devem ser respondidas imediatamente. Compromissos deve ser assumidos, bens adquiridos. Oportunidades não devem ser perdidas, mesmo que nem sejam oportunidades. O fantasma da automação e dessas tecnologias novas que irão pulverizar empregos já está dividindo espaço nas mesas e contracheques.
De repente, o mundo fica muito complexo para quem só queria um trabalho que calejasse orgulhosamente as mãos e entortasse o corpo.
Não dá pra lidar com tudo isso, mais a vida. Precisamos de um líder, guru, um salvador. Alguém que vai simplificar as coisas, reduzir tudo ao mínimo denominador comum. Diga-me por onde andar e eu te seguirei.
E assim, os seguidores arrumam um trabalho de terceiro turno: defender incondicionalmente o líder meia boca que escolheram, como se não fosse humano, como se não fosse um deles. Como se ele também não estivesse perdido. Um trabalho desgastante, gerador de estresse e que expõe fragilidades de caráter, pois tem-se que defender no modelo escolhido tudo aquilo que condenaria no modelo dos outros.
Isso acontece quando não se pergunta mais “quem sou eu” mas se convence do “o que sou eu”. E quando finalmente uma pergunta é feita, espera-se erroneamente uma resposta. Perguntas não querem respostas, perguntas querem entendimento.

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