Ponto final! Isso mesmo. Assim, no início. Por que não colocar um ponto final no início? Não estamos, afinal, sempre no meio de algo? Mal acabou o antes e já estamos começando outra cena, outra tarefa, outra história. Chegamos ao mundo bem no meio do assunto e a conversa nunca pára, ninguém te espera.
Pega o verbo e te vira! Acha teu lugar em algum canto do discurso.
O ponto é uma medida, uma pausa, uma respirada. O ponto é sempre de partida.
“É um ponto de vista…” desconversou meu amigo imaginário.
Através da linguagem, nos revelamos, mais do que gostaríamos. A “escolha inadequada” das palavras, um gaguejar, uma frase preconceituosa dita “inocentemente” ou “sem querer” nos desnuda.
Não há comunicação inocente, seja por ela querer transformar o outro, seja por nos expor. Há muito do que realmente somos em cada equívoco. Jacques Lacan já disse: “O lugar do inconsciente é o lugar da linguagem.”
Deve ser lindo ser psicólogo em um mundo onde as pessoas tanto falam, tanto escondem e tanto tropeçam nas suas vírgulas, pontos e adjetivos. Deve ser como ter o super poder de enxergar através das máscaras. Um ato falho é, na verdade, muito eficiente para revelar aquele outro “eu” que nos habita, amordaçado atrás da máscara social.
Às vezes, ele balbucia algo desagradável e inapropriado em rede nacional que outros mascarados tratam de relativizar e reforçar mordaças. É preciso cobrir a nudez, ninguém quer ser visto nu em público, nem em seus íntimos. Ter vergonha de se ver, ter medo de conversar em particular e se entender com seu outro eu é o caminho da doença.
Não somos linhas, somos interrupções, interrogações, desfocos, vírgulas, retornos, retomadas. Pontos de fuga. Nos auto alienamos com palavras bem escolhidas para ler um mundo mais palatável.  Usamos as máscaras por sobrevivência e acabamos acreditando que elas representam tudo que somos.
Mas é nas falhas e naquilo que não diríamos que está o auto conhecimento. O que descartamos e escondemos tem muito a dizer, mas é muito mais agradável revirar o lixo alheio do que o nosso.
Se estar sozinho é um problema, se ouvir seus pensamentos íntimos é feio, se falar sobre eles é impossível, se receber aprovação social o tempo todo é uma necessidade, se dormir tranquilo está difícil e se as pílulas são uma boa companhia, prepare-se. Isso vai ruir
Mas, ainda assim, não será o ponto final, só mais um trágico recomeço.

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