– Sou advogado, me chamo Roberto.
– Não! Não perguntei a profissão que você está exercendo, perguntei quem é você. Ou tudo que você é se resume a advogar?
– Bem…é força do hábito se apresentar pela profissão…sou um pai de família, dois filhos, tenho 43 anos, gosto de cinema, churrasco com os amigos, boas discussões sobre direito e política, pratico corrida e ciclismo, gosto de leitura de contos e crônicas, além dos livros técnicos, obviamente. Desensenvolvi interesse recente por bonsai…

– Ficaram bem claros os seus gostos. Eles são você?
– Isso é algum tipo de pegadinha? Me diga então você! Quem é você?
– Sou um indivíduo sem respostas, cercado de indivíduos que têm respostas para tudo, então me dedico a perguntar.
– E qual o sentido disso? Onde isso vai levá-lo?

– E qual o sentido de usar um terço da vida se preparando e dois terços exercendo o preparo para viabilizar a próxima geração de indivíduos iguais, que repetirão automaticamente o processo?
– É a evolução, construímos a sociedade e o bem estar comum. Me dedico a proporcionar justiça para o maior número possível de pessoas. Este é o meu papel social.

– Isso já se parece mais com um “você”, ter uma missão. Proporcionar justiça é uma nobre missão. A minha parece ser provocar com perguntas.
– Parece ser? Não tem certeza da sua missão?
– Para alguém que se dedica a perguntar, não seria um contrassenso ter uma resposta definitiva? Está tentando me pegar numa contradição, advogado?

– Você deve ser filósofo, professor de filosofia, ou psicólogo. Estou certo?
– Se eu lhe disser minha profissão, isso limitará o horizonte, serei colocado em um funil. É como discussão política com oponentes sabendo o partido um do outro. Torna-se uma discussão débil, acusatória e cheia de rótulos.
– Não é justo, lhe disse logo minha profissão, agora então eu estou em um funil?

– Buscando justiça em causa própria, está certo, justiça é para todos. Mas você se entregou muito fácil e com certo orgulho ao seu rótulo e funil. Gosta dele, ele praticamente é você.
– Esse papo filosófico só leva a tergiversações, um círculo vicioso que relativiza tudo.
– Ou, um círculo virtuoso que questiona e ressignifica tudo.

– Perda de tempo, temos que ser práticos?
– Temos?
– Ora, você usufrui de todo resultado do pragmatismo conquistado até aqui.

– De fato! E sou grato. Mas temos que ser sempre práticos e controladores? Robotizados? Um arremedo de ser humano, como o seu bonsai é um arremedo podado e reduzido de uma árvore?
– Dr. Roberto! Dr. Roberto! Está tudo bem? O pessoal do escritório está preocupado. O senhor está aí, atônito, há quase 15 minutos, falando sozinho.

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