Hoje teve. Bem cedo entrou pela janela, abri a outra metade para entrar mais. Respirei fundo e experimentei o aroma atávico. Por que é tão bom? Já se perguntaram cientistas, já o descreveram cronistas. É um aroma de infância, mas da infância da humanidade, por isso nos é tão familiar.

Mesmo descobrindo que vem de uma molécula produzida por uma bactéria, os doutos cientistas não resistiram batizá-lo com uma certa poética, misturando “pedra” com “o fluído que passa pelas veias dos deuses”. Petrichor. Ou Geosmin, se quiser ser mais preciso e cartesiano, citando o nome da molécula produzida pelas bactérias. Mas quem quer ser preciso e cartesiano enquanto sente o cheiro da chuva, o cheiro de terra molhada? Não, não. Quando se cheira terra molhada, o mundo para por um tempo, vamos a algum lugar familiar que não conhecemos e, só depois que voltamos de lá, é que vamos pesquisar para descobrir essas coisas de moléculas, solo, raios, chuva e nome do sangue dos deuses. Mas só depois de passar Petrichor. Enquanto Petrichor nos invade, somos Petrichor.

Eu estava lavando o jarro da cafeteira e ali fiquei, ou melhor, ali fui, para este lugar de cheiro de terra molhada. E o empresário que entrou correndo no carro, nessa mesma hora, e ao fechar a porta capturou o aroma que o cercou? Aposto que gastou uns segundos para respirar mais fundo, com as mão no volante. E a mulher atrasada, pegando táxi? E o motorista do táxi? E aquele que caminha escondendo uma tristeza sob o guarda chuva? Aqueles tantos, dentro do ônibus, com as cabeças coladas nos vidros, perceberam o ar mágico entrando pelas ventarolas semiabertas? Para onde foram? Como não os encontrei naquele lugar familiar desconhecido?

Acho que Petrichor leva cada um para o mesmo lugar, mesmo que para lugares diversos, é um evento solitário que acomete a muitos. Só poderia ser repleto de contradições algo que vem do solo, espancado por delicadas gotas e que sobe por narinas, invade cérebros e os desliga por eternos segundos.
Lá, no mundo do cheiro de terra molhada, somos só crianças inebriadas por um aroma e embaladas por uma canção de águas caídas. Deveríamos ir mais vezes para lá. 

Eu li que a bactéria perfumista que cria o Petrichor só se desenvolve em solos saudáveis, talvez por isso, quando estou em um lugar que a chuva não cheira bem, a vontade é de ir para outro.
Um dia, as bactérias vão se unir em revolução e de uma só vez, no mundo inteiro, irão provocar um grande derrame de Petrichor. Voltem para a terra! Voltem para a infância! É o que elas estarão querendo dizer.

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