Quando minha filha era pré adolescente e eu um pai semi ausente, aconteceu a pergunta.
Eu havia me separado de sua mãe quando ela tinha três anos, situação bem difícil que levou o tempo da dor em vez do tempo do amor, para que todas a gavetas da vida voltassem a guardar, separadas, o que antes era par, e fora espalhado.
A cada quinze dias o fim de semana era meu e dela, assim foi negociado naquele período conturbado. Passeávamos, visitávamos amigos, íamos no parque Centenário, dávamos Cheetos aos gansos. Eu sabia que não era a comida ideal para eles, mas gostavam tanto, e nos divertíamos com dezenas de aves fiasquentas nos perseguindo pelo parque. Paramos com os petiscos quando percebemos que os bichos ao nos ver, já se aproximavam com preocupantes olhares adictos.
Conversávamos sobre muitos assuntos, sempre fui uma fonte de satisfação de curiosidades diversas para meus filhos. Tenho o maior orgulho de ter dois nerds.
Naquele sábado de manhã, ela entrou no meu carro e no meio do passeio quebrou o silêncio:
– Pai, Deus existe?
Eu estava diante da oportunidade da doutrinação. De aproveitar minha posição de maior experiência e cultura para “fazer a cabeça” da menina. Porém, percebi que a maior lição que a situação pedia, era um exemplo de ética e honestidade intelectual.
Respondi que eu não acreditava em Deus, mas que a mãe dela sim, e toda a família dela e a minha acreditavam, colocando assim, dois pesos importantes em cada prato da balança. Comentei que a certeza absoluta sobre a existência ou não de Deus é um caminho pessoal e que eu não poderia dizer a ela qual caminho seguir, teria que ser uma jornada de investigação e sentimento pessoal.
Até esse momento, fui um “pai sem partido”.
Porém, quando comecei a elencar as razões que me levaram a não crer, quando falei da ciência, dos livros e filósofos que li, tomei partido. Impossível comunicar minhas razões sem os filtros e paixões que me levavam a ver o mundo com as cores que escolhi. Estimulei que ela também ouvisse as razões de quem crê, lá veria alguém tomando outro partido, com outras lentes e cores de mundo.
Quando ouço falar em doutrinação escolar, em moldagem de mentes jovens e, sendo a solução para evitar isso, uma “comunicação neutra”, penso que estão propondo uma quimera.
Não há comunicação inocente, todo diálogo, discurso, texto, visa uma transformação, visa levar o pensamento de um ponto a outro. Nem o silêncio é neutro, pois nos comunicamos com os olhos, com o corpo, com os sentimentos. Já viu um olhar de medo? Medo de quê? De quem? Por que esse medo? Quem o ameaça? Só estes questionamentos sobre um olhar já abrem a possibilidade de tomar posição.
Claro que há colonizadores de mentes assim como há libertadores de mentes. Me parece que o que falta é cada um buscar em si dois artigos raros: bom senso e honestidade intelectual.

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