Vivemos uma época na qual tudo que precisamos é subcontratado. As notícias que nos mantêm informados e indignados são produzidas por pessoas que subcontratam repórteres e fotógrafos e que nos contam coisas sobre outras vidas, que fazem coisas e subcontratam serviços infinitos, os quais não temos condições de avaliar em sua dimensão e interligações.
Nossa capacidade de compreensão do mundo é alimentada por resumos.
Reunimos uma infinidade de resumos no nosso mundo particular e subcontratamos outras opiniões resumidas para criar as narrativas, histórias e valores que irão nos fazer levantar da cama por mais um dia.
O café que tomamos, o pão com manteiga que comemos alegremente (ou não) no desjejum matinal é como se sempre estivessem ali no Super, (até uma greve de caminhoneiros abalar nossa matrix).
Nosso trabalho é fazer um auto delivery dos insumos até nossa mesa e, raras vezes sem intermediários, passar a própria manteiga no próprio pão.
Nossa rotina tem um nível de serviços nos sendo prestados, o tempo todo, que nenhum rei jamais teve. Passamos a maior parte da vida ocupados prestando serviços que nos pagam para que possamos comprar outros serviços de pessoas constantemente ocupadas vendendo seus serviços.
Se todo mundo é terceiro, sou obrigado a perguntar: quem são os segundos? Quem é o primeiro?
São entidades míticas, não existem no mundo real. Conseguimos a proeza matemática de começar a contar pelo três. A isso chamamos de mundo moderno normal.
Se é normal, nos entregamos placidamente à normose e moldamos nosso pensar a essa fôrma.
O combate à corrupção, o controle da violência e dos crimes, a redução da ignorância, o cuidado com a coisa pública… quem pode me entregar esses serviços?
– Moça! Em qual prateleira eu encontro um pacote de empatia?
Tudo é sempre responsabilidade para outros começarem, para só então eu aderir. “Alguém tem que fazer alguma coisa sobre isso.” Sempre alguém, e alguma coisa, que não sei quem nem o que é, mas quando aparecerem com a solução eu saberei dizer, com base na minha coleção de resumos, se a proposta é boa ou não. Provavelmente irei criticar, pois algum sacrifício me será exigido, alguma crença minha será abalada. O frágil equilíbrio do meu mundinho terceirizado será posto em risco, para o bom andar dessa ideia desagradável que não veio pronta.
Terceirização é a solução. E isso é bem antigo. Rezamos como forma de terceirizar para entidades supremas a resolução dos nossos problemas e os do mundo. Votamos em promessas e acreditamos que nossa parte foi feita.
Mas, às vezes, não tem outro jeito, temos que passar a própria manteiga no próprio pão.

Deixe seu comentário