Na minha cidade, sempre houve os loucos sociais, aqueles desconectados que a sociedade adota. Lembro de dois em especial, que eram figuras folclóricas. Apesar das histórias de suas vidas não serem muito inspiradoras, nem suas atitudes dignas de elogio, eram seres livres e, como tal, serviam para mostrar a nós, autômatos do quotidiano, que há uma vida na qual sequer há o botão de f****-se, para apertar.
Certa vez, vi um desses personagens pescando carros. Em uma das ruas movimentadas da cidade, ele esticou uma corda e ficava esperando que as rodas passassem por ela e a puxava, tentando fisgar um Wolksvagen, Ford, ou quem sabe, a sorte grande de trazer um Mercedes para seu balaio.
O outro era andarilho e dialogava com seres invisíveis. Era feliz quando encontrava uma lata com restos de cola ou solvente. Às vezes, parava sua jornada e tentava pacificar uma contenda entre os seres ectoplásmicos que compunham seu séquito imaginário. Vendo esta cena me tranquilizava, pois se até os seres do outro mundo se desentendiam e precisavam de um humano desconectado para fazê-los voltar ao prumo, havia, afinal, esperança para a humanidade.
Um dia desses, passei de carro por uma praça, dessas que têm mesas de tampo quadriculado para jogos, e vi aqueles dois sentados jogando algo. Na pressa, pude ver pedras, tampas de garrafas e outros objetos no tabuleiro e os dois, muito concentrados, em lados opostos, completamente mergulhados na disputa.
Fiquei curiosíssimo! Quais seriam as regras daquele jogo? Mudariam a cada lance, a cada segundo? Seriam as regras ditadas pelas entidades? Na minha loucura diária, não pude parar, precisava voltar ao escritório e cumprir compromissos e prazos que a lata de cola que era meu mundo, exigia. Nunca esqueci da cena e do quanto de surrealidade perdi, por não parar e assistir aquele jogo de loucos. Sabia que um dia aquela cena me revelaria algo. Acho que chegou o dia.
Os dois loucos jogando um jogo impossível era uma caricatura nossa, quando nos debatemos com o que não sabemos e teimamos ter certeza. Um exemplo seria um ateu e um religioso. Há uma crença e uma não crença, mas insistimos em nos digladiar, um em cada lado de um tabuleiro improvável, num jogo de regras impossíveis e que mudam a cada lance. Ler a bíblia ou o manifesto comunista, ou aprender sobre alguma filosofia de vida não deveria ser encarado como um manual de regras rígidas de jogo, mas como inspiração. A vida real vai mudando as regras de acordo com a época, com as descobertas, com os acontecimentos, e jogar esse jogo com a intenção de ganhá-lo é perder o melhor que ele tem para dar.
A beleza está na loucura do estar sendo, na sabedoria que adquirimos.
Hoje entendo que os loucos não estavam jogando, estavam curtindo o momento, mudando regras, testando, vivendo, porque desapegaram de ganhar a partida. Mais de uma década depois dessa cena, percebo que eu era o louco e que, logo após eu passar, eles riram muito do ser desconectado da realidade que tinha acabado de se intrigar com algo tão óbvio.

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