A dor de estômago e o mal estar, tudo bem, já tinha se acostumado. Mas agora esse pigarro?
Que saco ficar fazendo um “AHHRAAM!” meio escarrado a cada quinze minutos! Se tivesse tempo até, iria num médico, mas deve passar logo. Estas mudanças loucas de clima mexem no corpo da gente.
Pegou um Omeprazol, na inseparável caixinha, e viu que só tinha mais meia cartela. Que bom que há uma farmácia em cada esquina.
Pensou que hoje em dia é mais fácil morrer numa farmácia do que em casa. Pelo menos ali deviam saber o que fazer, nesses casos de morte súbita. E qual morte não é súbita? – pensou.
Enquanto o queimor no estômago foi passando, teve uma amostra de como era a vida sem problemas e preocupações. Pôde até reviver, por um átimo, o tempo que não tinha compromissos, metas, prazos, gritos, boletos…
Veio à sua face o sorriso do dia. Aproveitou! Sabe-se lá quando viria outro. Estavam mais raros que as ereções.
Lembrou que tinha lido um artigo na internet, afirmando que excesso de Omeprazol poderia causar demência. Ficou mais fã. Demência seria um bálsamo para quem vive no inferno.
Daqui, de quem o vê de fora, é um cara agradável. Não se indispõe com ninguém, tudo está sempre bom o suficiente. Tem aquele sorriso treinado, de vendedor, mas a gente aceita. É um sorriso aceitável nos dias de hoje. Sabe-se lá quando veremos outro de verdade.
Dizem, os que o conhecem melhor, que ele engole sapos como ninguém. Contam uma cena épica do patrão cagando em sua cabeça por quarenta minutos, e ele lá, plácido. Parecia um monge budista, com seu sorriso cálido e o olhar no nada. Por dentro, ele só pensava no salário e no Omeprazol que iria tomar depois da chuva de insultos e perdigotos do chefe.
É um cara silencioso e comedido. Se não fosse o pigarro, nem saberíamos que estava ali.
Nunca incomodou ninguém. Nem se incomodou. Todos com que converso têm inveja dessa paciência Zen. Segundo consta, ele nunca fez retiro ou participou dessas coisas místicas. Uns amigos espíritas dizem que é uma evolução natural. Coisa rara. Não é pra todo mundo ser assim, tão “sangue de barata”. Tem que estar conectado com outra dimensão pra aguentar o que a ex mulher fez com ele. Já houve assassinatos por bem menos.
O legista, que não acredita nessas coisas nem nunca se impressionou com nada, esteve lá no bar, apavorado. Depois do terceiro Whisky no gute, começou a falar da necrópsia.
Disse que nunca tinha visto nada igual. A quantidade de vaisasputasqueparius que tinha entalada naquela garganta, era pra ter sufocado o cara há muito mais tempo. Não dá pra dizer que foi uma morte súbita, ele vinha morrendo há anos.

Deixe seu comentário