Não foi à primeira vista, só na terceira noite Confete se apaixonou por Serpentina. Incontáveis voos livres, se encontravam grudados em corpos suados, sambaram dentro de copos cheirando a cerveja, até em bocas e partes que não se orgulham de ter estado, estiveram. Na quarta cinza, amassados e acabados ao chão, mais uma vez se amaram, desta vez, no silêncio que só a ressaca sabe prover. O casamento foi modesto, celebrado no castelinho de cartas. Confete era gerente da grande usina Origami de reciclagem. Acompanhava a produção e via seu destino na massa disforme de celulose que um dia o tragaria e o transformaria em papelão, o estágio antes da morte definitiva. Se tivesse sorte, poderia até fazer parte de um papel artesanal e ter uma duradoura vida extra em alguma peça de bom gosto. Se tivesse mais sorte ainda, Serpentina estaria com ele, na mesma massa, e viveriam mesclados e felizes. Sonhava, mas sabia que a realidade não era romântica. Seguiria o destino: papelão, caixa, lixo e apodrecimento. A alegria de sua vida se resumia aos dias Carnaval, quando, junto com Serpentina, era uma das estrelas da festa. Subitamente foi acordado do devaneio pelo Sr. Papel Higiênico Folha Dupla Perfumado, o carrasco dono da usina, cobrando relatórios. Assim eram seus dias, este era seu papel.

Serpentina trabalhou como secretária da Dra. Fita Crepe até que vieram os três filhos: Apara, Retalho e Papel Picado, então assumiu o papel do lar.

Sua rotina era cuidar da casa, levar e buscar as crianças na escola. À tarde, desamassar a casa, pensar na janta e contar os dias até o próximo Carnaval. Não era sonhadora como o redondo marido. Olhava suas pontas rasgadas e seu esguio corpo ir diminuindo dia a dia. Depressiva, decidiu que tinha que aproveitar a vida e aquelas tardes modorrentas. Há tempo observava seu vizinho, um jovem A4 alta alvura. Seu corpo enorme, perfeitamente simétrico, gramatura perfeita, era irresistível. Ele passava os dias de bobeira, esperando ser chamado para a impressora. Serpentina aparou suas pontas, disfarçou os amassados e tomou um banho de algodão com benzina, retirando as gorduras acumuladas de seus dias, ficando impecável para o amante. Entregou-se e foi tórrido. Tinha alguma alegria.

Chegou novamente o Carnaval, o casal tinha que honrar a tradição. Os tempos modernos trouxeram as espumas, os pós coloridos e os papéis metalizados e fosforescentes, que ameaçavam seu reinado. Sambaram e festejaram como se fosse o último. Na quarta-feira, Confete agarrou-se com força em Serpentina e disse: “Há 8 anos eu não sentia o cheiro de benzina em você.” E jogou-se com sua amada no esgoto, sendo levados pelo turbilhão até desfazerem-se.

Sr. Papel Higiênico administrou a usina até seu último picote, deixando tudo para seu único herdeiro, o imprestável Miolo Tubo de Papelão. Pôs tudo a perder.

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