Quando lhe davam bom dia e emendavam o tradicional “como vai?”, respondia: “Tudo bem, como Deus quer.”
Quando se abatia alguma desgraça na família ele consolava: “É a vida”, “Há males que vem para o bem”, “Fazer o quê?”, “Quando Deus fecha uma porta, abre uma janela”, “Deus, quando arranca os dentes, alarga a goela”.
Para velórios, já tinha repertório ensaiado: “É! Para morrer, basta estar vivo”, “Era uma pessoa do bem, nunca fez mal a ninguém”, “Morreu como um passarinho”, “Está num lugar melhor agora”, “Descansou!”, “Foi para junto do senhor” , “É o destino de todos nós”, “Ainda semana passada falei com ele…

Quando lhe passavam a perna ou tiravam vantagem sobre sua serenidade, disparava: “Deixa estar!”, “O mundo é redondo”, “Dor de barriga não dá uma vez só”, “Deus está vendo”, “A justiça dos homens falha, a de Deus não”, “Um dia as máscaras caem”.
Guardava também algumas pérolas para quando lhe pedissem conselhos sobre qualquer assunto: “Siga seu coração que tudo se resolve”, “Coloca na mão de Deus”, “A dor ensina a gemer”, “Se quiser se meter a avestruz, tem que aguentar o tamanho do ovo”, “Vá em frente, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, “Quem espera sempre alcança”, “A cavalo dado não se olha os dentes”.

A confusão de ambulâncias, pessoas e bombeiros, quase em frente o prédio onde trabalhava, indicava que o dia seria diferente. Ele gostava de rotinas, por isso nunca procurou outro emprego além do Call Center. Repetir mantras técnicos ensaiados era o seu destino, “Deus quis assim”. Quando conseguiu chegar mais perto do acidente, já havia uma reunião da equipe na rua: “Caros colaboradores, hoje não estaremos tendo expediente, o caminhão desgovernado, infelizmente acabou derrubando um poste, estaremos ficando o dia todo sem energia e sem telefone. Os atendimentos estarão sendo distribuídos para as células 5 e 8 do grupo. Aproveitem a folga para ensaiar os textos de atendimento das novas apostilas entregues ontem.”

O gerente era um mestre, sabia falar pausadamente e usava com perfeição os gerúndios, até mesmo em uma situação tensa e inesperada como esta.

O Homem Clichê sentia-se estranho por voltar para casa tão cedo, tão fora do script. Viu a banca de flores, levaria um buquê de rosas para sua doce pombinha. Pelo menos um clichê, em meio ao caos.
Conforme os presságios da manhã, aquele dia seria diferente. Sentiu mais forte o aroma e os espinhos das rosas, enquanto as esmagava junto ao peito, diante do maior clichê de todos os tempos.

Matou a esposa e o vizinho ali mesmo, no seu “ninho de amor do casal de passarinhos”.
Para o repórter policial, limitou-se a responder: “A vida é como o futebol, uma caixinha de surpresas.”

Deixe seu comentário