Conta a lenda que em um pequeno povoado um estranho caso médico aconteceu. Ervas, simpatias, rezas e bruxarias não resolviam o mal que assolava uma pobre alma. Dizem até que o famoso Theophrastus Paracelsus tornou-se alquimista estimulado pela busca da cura da excêntrica moléstia.

No começo os pais pensavam que o menino fosse dorminhoco, mas ao crescer perceberam que ele desmaiava toda vez que uma escolha ou decisão lhe era imposta.

– Papinha ou leitinho morno, meu filho? PUF! O guri desfalecia.

– Mamãe vai à missa, papai vai à feira. Com quem você quer ir? PUF!
O Garoto cresceu. A vida vai impondo decisões e encruzilhadas à medida que a complexidade social se descortina. Para evitar conflitos, o jovem se esforçava para agradar a todos. Era muito prestativo, sempre solícito, concedendo favores e ajuda. Seguidamente distribuía vísceras e sangue no povoado. Uma boa parte da população tinha um estranho gosto por tripas, mucos e buchadas alheias. Isso não abalava o jovem. Sangue, corpos e morte são a realidade nua e crua, não deixam margem para escolhas difíceis. A última decisão que o atormentava periodicamente era o corte de cabelo. Uns diziam que ele ficava bem com longas madeixas, outros alegavam que um corte curto passava mais seriedade. Cada vez que precisava aparar era uma tortura. Diante da indecisão, desmaiava na cadeira, e o barbeiro, de sacanagem, cortava metade curto e metade longo. Um dia, em surto, o desmaidor arrancou todos os cabelos e resolveu o problema.

Como era muito bem visto e quisto, o jovem acabou sendo escolhido para ser representante do povo e fiscal dos atos do rei. Havia um descontentamento geral. Desconfiavam que o monarca estaria beneficiando amigos carroceiros e pedreiros. Eram sempre os mesmos que prestavam os mais bem pagos serviços de transporte de crias e pavimentação de ruas. O problema é que o jovem era amigo do rei. Faziam planos juntos para o futuro do povoado. O jovem polia com cuidado a branca coroa do rei. O rei cantava canções para acalmar o coração do jovem. Uma grande reunião foi marcada para decidirem o futuro do rei e o jovem seria um dos votantes. Diante do angustiante conflito, um dia antes do grande conluio, o desmaiador teve seu maior desmaio. Quando acordou, dias depois, o povoado era um caos. O desmaios haviam se tornado epidemia. Quando os cobradores de impostos chegavam, o povo, na indecisão entre pagar ou não, desmaiava. Os limpadores das latrinas do castelo, diante da dúvida, se aquela vida valeria a pena ou não, desmaiavam. Os padres em seus confessionários, diante dos terríveis pecados revelados, desfaleciam antes da decisão do perdão. Esta história está longe do fim, há muitos interesses e pressões. Como um dos escribas do povoado também sou pressionado para não revelar os desdobramentos para a posteridade. É uma situação angustiante, mas não vou me privar de contar tudo que sei, assim que passar esta tontura e o aperto no pei…

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