Quem usa óculos sabe que, no momento da sopa quentinha ou do caneco entre as mãos, assoprando a bebida reconfortante, as lentes irão embaçar. O novo normal já começou, lentes embaçadas são uma lembrança constante disso. A natureza levou milhões de anos para desenvolver nossas narinas para baixo e, em dois meses, invertemos o fluxo do nosso escapamento respiratório. Quem usa óculos e máscara vê paisagem tropical quando inspira e paisagem londrina quando expira.

Nas poucas vezes em que saí e tive interação com pessoas mascaradas, desenvolvi novas paranoias.
Na impossibilidade de ver as bocas falando, fico observando doentiamente o que sobrou à mostra no rosto para ajudar na boa compreensão. Até as orelhas segurando heroicamente aqueles elásticos me parecem expressivas. Ouços-as pedindo socorro.
Algumas máscaras têm me causado um problema particular. À medida que a pessoa fala, o nariz vai ganhando terreno. A cada palavra, desce um milímetro do tecido. Quando o nariz está quase saltando para fora, a pessoa delicadamente puxa de volta a nova versão facial da cueca com elástico cansado e o processo recomeça. A partir daí, meu cérebro não consegue mais ignorar a luta máscara versus nariz. “É agora que o nariz se liberta…” E lá vão os dedos em cavalaria. O nariz virou um novo órgão pudendo, logo teremos fantasias de ver um nariz nu. Foi-se o tempo da torcida para a moça de blusa solta pagar peitinho, agora paga-se narizinho.

As máscaras descartáveis com aquele arame de fechar saco de pão fatiado embutido na bainha resolvem os dois problemas. Modela-se a curva nasal e adeus bafo subindo, sem óculos embaçado, sem nariz querendo se exibir. Perfeito! Até que os elásticos começam a soltar. A primeira vez que usei, soltaram os dois do queixo, me senti um bagre com fiapos pendurados na mandíbula. Agora reforço os pontos de contato dos elásticos com o tecido com o grampeador.

Outro dia, estava com a minha, firme e forte. Dia frio, estava agradável aquele calor respiratório preso no rosto. Espirrei. Maldita rinite! Constatei a eficiência do equipamento, nada saiu. Este foi o problema. Notei algo de considerável tamanho e estranha consistência preso dentro da máscara. Logo aquilo ficou gelado e eu sentia roçar nos meus lábios. O nojo excitou a imaginação, sentia um enorme conjunto de perdigotos unidos por algum muco a milímetros da boca. O que saiu como descarte não deve reentrar, esta lei da natureza é bem clara. Comecei a encolher os lábios, fazendo “boca de bangela”, tentando evitar o contato com aquele ser viscoso. Ainda bem que ninguém via a cena deprimente sob o tecido. Então me ocorreu um pensamento gélido: E se for um daqueles verdes, consistentes e de respeito? E se está visível na leve transparência da máscara? Acabo de criar a “freada de bicicleta” das máscaras!

Cheguei no carro, passei álcool gel nas mãos, tirei a máscara e constatei que não era tudo aquilo, só uns perdigotinhos unidos por um muquinho. O que os olhos não vêem e os lábios tocam, o coração sente e exagera. Saúde!

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