O medo se esconde no futuro. Não existem medos no passado. E, no presente, os encaramos muito de relance, é o tempo do susto e já passou. É ali, no futuro próximo, onde ainda conseguimos ver ruas e becos escuros, que o medo está de tocaia, esperando-nos para o sobressalto. O medo sabe que, se se escondesse no futuro muito distante, ele se diluiria a ponto não ser mais medo. Então, ele não se revela, mas se insinua, a uma distância que dê visada à imaginação.
Sábio, ele nos domina por não se revelar e cresce no terreno fértil da nossa ignorância.
“O conhecimento é o antídoto do medo.” Ralph Waldo Emerson
Algumas pessoas são intrépidas, parecem imunes ao medo, ou se nutrem dele. Pendulam em precipícios nos quais as pessoas normais sequer cogitam margear. São heróis ou são inconsequentes? Elas veem o medo como uma provocação a ser superada. E quando se atiram ao risco, não estão caindo, estão caminhando no vácuo. Só param mortas e, mesmo assim, sobre seus cadáveres, viverão inspirações. Suas fibras vêm de uma crença, de um propósito que custou muito medo, mas que ficou irrelevante quando viram algo além do que os aterrorizava.
E se, como esses intrépidos, pudéssemos ver além dos becos escuros? Se pudéssemos colocar nossos olhos num drone e voar por cima do labirinto e ver onde os medos espreitam?
Na verdade, podemos!
Podemos treinar os olhos da imaginação e do desejo para ver o futuro do futuro, no tempo onde já passamos pelos becos. Em vez de focar no medo, focar nos resultados do trajeto e, com isso, colocar o medo no seu lugar: o cãozinho amigo que é chato, mas dá os alertas necessários para um caminho mais seguro.
Acumular acervo de conhecimento, amarrar os medos às curiosidades, premiar novos aprendizados com orgulho e confiança também ajudam a adestrar esse cão.
Na democracia baseada no consumo, não são as pessoas que estão no poder, mas seus desejos. Numa sociedade estimulada pelo medo, a proteção e as soluções simples são produtos. Os olhos dos nossos desejos raramente estão no futuro do futuro, eles são treinados para a miopia.
Quando o medo se torna um lobisomem, hediondo, muito maior que nós, ou petrificamos ou passamos em desabalada carreira pelas oportunidades, pela felicidade, pela vida.
Lembro bem dos medos das minhas esquinas escuras, mas a rua ia tão longe, e lá, bem mais adiante, havia uma praça iluminada que não podia ser ignorada.

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