Os Mahalahari, povo que vive no deserto de Kalahari, tem um modo interessante de encontrar água. É o científico método “sacaneando um babuíno”. Estes símios conhecem as fontes de água e as mantêm em segredo, não confiam nos humanos, mas são muito curiosos.
Sabendo disso, o nativo Mahalahari se certifica de que tenha um babuíno o observando, faz um buraco estreito em um cupinzeiro e deposita lá algumas sementes. Ao ver o humano se afastar, o macaco vai satisfazer sua curiosidade, mete a mão na cumbuca, pega as sementes e fica preso em sua própria mão fechada. O nativo prende o macaco até que fique sedento, para depois soltá-lo e segui-lo em disparada até a secreta fonte de água. A verdadeira sacanagem desta história está na relação cérebro-mão. Um não ajuda o outro e se ferram.
Comecei a usar o mouse com a mão esquerda pra economizar a direita. Não sou sovina a ponto de economizar membros, o caso é que tive tendinite e precisei reduzir os movimentos repetitivos. Já aproveitei pra fazer um fitness cerebral. Este episódio serviu para refletir um pouco sobre a relação mão-cérebro.
Vivo da minha mão direita, mas no meu cartão de visitas não tem referência às mãos, tem um cérebro com uma placa de “aluga-se”. Estarei sendo injusto com a ferramenta e supervalorizando o software? Creio que não, é o cérebro que manda, a mão só reproduz.
Mas aí conheci a rebeldia da esquerda, se recusando a seguir ordens superiores. A cada movimento desajeitado, falta de precisão, resistência aos impulsos elétricos, eu percebia o motim. O todo poderoso que até então tinha total domínio da direita estava tendo problemas com a esquerda. Sempre a esquerda…
As mãos são os olhos do cego e as palavras do mudo. As mãos acenam, afagam, agridem, constroem e destroem. Têm força quando se unem por uma causa, em oração e abraços. Elas têm valor quando aparecem como “joinhas” de uma postagem no Facebook.
Mas as mãos só funcionam porque há vontade, estímulo e cooperação.
Por isso resolvi ir além do mouse, estou dando mais responsabilidades para a canhota, ela já é preferencial para apertar botões de elevadores e escovar os dentes. Está subindo no conceito da chefia. Assim, com valorização, justiça e treinamento vamos trazendo a esquerda para o centro (das atenções), promovendo uma boa relação “corpo-benefício” .
Não é preciso ser um sábio Mahalahari pra captar a mensagem. Às vezes, temos que abrir mão de algumas coisas para não ficar preso nas cumbucas da vida e isso, na verdade, nos faz evoluir e experimentar novos desafios.

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