– Fica! – Não posso. – Por que não? – Seria uma indecência. – E o que acabamos de fazer, não é uma indecência? – Não. É um segredo. Só vai ser indecência se os outros souberem. E se eu não sair agora, os outros vão saber.
Na rua, estava o frescor do início da noite, o curto beco vazio desembocava convenientemente na parada de ônibus, onde todos olhavam, como galinhas, para o mesmo ponto de atenção forçada. Ninguém notava se surgia uma nova ave perdida ou se se perdia uma outra.
Na cama, estava o morno do corpo dela, seus cheiros e palavra “indecência” jogada entre as rugas dos lençóis. O que é a indecência? Viver uma vida miserável sem perspectiva de saída, ou dar-se um momento de escape, um namoro com a felicidade, só para não deixar de saber como ela é?
Engraçado que ele nunca tinha visto a situação como indecente, mas como oportunidade ou simplesmente prazer sem culpa. Ela deveria estar agora no ônibus, com culpa. Estaria também um pouco feliz, mas se há o fantasma da indecência, quanto tempo ele levará para envenenar o prazer?
Ele nunca tinha pensado pelo ponto de vista dela. Que palavra poderosa esta “indecência”. Agora ela envenenara os dois.
A fome é indecente, a injustiça é. Mas todos convivem bem com isso. Indecência só é preocupação quando se torna epidérmica. Principalmente quando queremos esconder a nossa, evidenciando-a na pele dos outros.
Quem define, acusa e julga o que é indecente em uma vida que mal conhece? É mais fácil julgar uma ideia indecente do que um ato. A ideia ainda não tem culpa e pode ser mudada. Já o ato… Uma vida socialmente indecente dá o direito de cometer uma indecenciazinha que, aos olhos da mesma sociedade doente, é proibida? E se isso virar um vício? Não seria este vício, na verdade, a virtude? A busca de uma vida decente pelo caminho da indecência?
Ele pensava tudo isso, mas não sabia se estava em busca de uma verdade ou se convencendo. A situação era confortável para ele, ou pelo menos tinha sido até esta palavra maldita vir para a cama.
E agora? O que ela deve estar sentindo, ao chegar mais perto de casa? Culpa? Alívio de vingança? Voltará? Ou o veneno vai agir rapidamente? E estes aos quais ela teme, que a acusariam, por que têm tanto poder? Ela os teme mais do que ao marido. Deve ser porque eles são muitos e ávidos olhos. E o segredo também é tempero. Tem valor em uma vida insípida.
Os que a descobririam e a acusariam são bons entendedores de indecências, isso os faz muito eficientes. Quantas vontades insatisfeitas devem ter? Como suportariam alguém que satisfaz as suas?
Nunca tinha antes dedicado tanto tempo e preocupação pelos sentimentos dela. O que estaria acontecendo?
Quando pensava nela sendo descoberta e sofrendo, um gelo lhe invadia o estômago. Quando pensava em nunca mais vê-la, um amargo.
Seria pelo número de vezes que já ficaram juntos? Estariam se acostumando? Ele precisava anotar isso, como um tipo de manual: “Depois de X vezes a coisa começa a complicar…” Seria útil para outros como ele.
Quantas vezes já tinham se visto? quando foi o terceiro, o quinto, o décimo encontro? Ele não sabia. Ela, com certeza sabia. Precisava perguntar a ela no próximo encontro. Não! Definitivamente esta pergunta seria uma indecência.

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