O Gustavo, depois que frequentou um ritual xamânico e fumou uma planta sagrada, jamais conseguiu mentir.
– Voltei do transe e soube, na hora, que toda a mentira tinha saído de mim! – contava com orgulho.
– Hoje, quando me perguntam algo e vejo que a minha sinceridade vai causar traumas, fico quieto.
O Gustavo era um cara muito quieto. E solteiro. Nenhuma relação sobreviveu depois de seu renascimento místico.
– O que achou do meu cabelo, amor?
– Bah! Tu ficou a cara da Janis Joplin! (Pro Guto, ser a Janis Joplin era um elogio.)
Conviver sem as tão necessárias mentiras sociais é impossível. Precisamos ouvir de outras bocas o eco dos nossos pensamentos. O Guto se tornou a pessoa ideal para dar notícias tristes. Ele gostava. Considerava sua missão no mundo, por isso foi conduzido até aquela planta.
– Não são as notícias que machucam, é a vida. A verdade nunca fere, a mentira sim.
Este era mais um dos famosos provérbios de Guto. Perdeu as contas de quantas tragédias levou corajosamente ao conhecimento de parentes das vítimas. Empresas o contratavam para demitir funcionários, ele fazia questão de expor os reais motivos. Fez muitas inimizades.
Nos assuntos políticos, ele já não se metia, desde que deu uma opinião ao vivo, para uma rádio local, sobre o mais famoso, querido e eterno candidato a prefeito ou qualquer cargo disponível:
– Esse cara é um populista aproveitador, delirante e inepto. Engana todos com palavras agradáveis e fazendo fotos capinando sarjetas e carregando criancinhas suadas. Foi deputado por vinte anos sem nenhum projeto relevante. Agora o séquito de aproveitadores e puxa sacos que ele traz a tiracolo diz que precisamos de um representante de respeito lá, para que a região se desenvolva. E naqueles vinte anos? Por esse argumento, deveríamos já nos ter tornado um segundo Vale do Silício.
Não preciso dizer que a vida social do Guto virou um inferno naqueles meses. O séquito tratou de difamá-lo, cavocar sua vida pregressa, atribuir-lhe pechas de drogado, promíscuo e todo o kit difamação já bem conhecido e sempre utilizado por néscios incapazes de argumentar. Outros, os incendiários, estimulavam o Guto para se candidatar, não se elegeria, mas os debates seriam históricos.
Foi numa manhã agradável de setembro que os amigos o incumbiram da sua mais ousada missão: comunicar ao Pedro Cavalo que sua esposa havia fugido com o Zé Galinha. Ela não estava visitando a mãe, conforme dissera ao truculento companheiro.
Muito já se filosofou sobre a cornice, mas nem o mais manso dos bovinos a aceita, assim de sopetão e com uma sinceridade pontiaguda. Foi assim que o Pedro Cavalo sentiu a notícia, uma grave punhalada no peito.
– Pedro, você é corno, faz uns cinco meses, todo mundo sabe. E como é da praxe desses assuntos de guampa, você está sendo o último a ter ciência. Como sou seu amigo lhe dou a real, sai dessa, sua mulher já fugiu com outro.
Foi ou não uma punhalada? O Pedro Cavalo não queria ter matado o Guto, era seu amigo. No tribunal ele alegou legítima defesa. Dizem que aquele eterno candidato suspirou aliviado.

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