“Dar esmola a um mendigo é apenas prolongar por mais um dia sua deplorável existência.”
Li esta frase, há muito tempo, atribuída a um dos meus filósofos favoritos, Arthur Schopenhauer. O problema de ter filósofos preferidos é o mesmo que ter gurus, mestres, políticos preferidos. Os elevamos à condição de referência e tendemos a segui-los sem questionar, nem pesquisar e incorporamos conceitos que, “se vem dele, é bom e certo.” E quando conceitos e regras pré pensadas contam com a aura de “sagrados”, ganham ainda mais força de fixação. Por um bom tempo não dei esmolas a mendigos, embalado pela citação do mestre.
Acontece que a frase é uma deturpação de um conceito do velho Shops. Quando se referia à sua mais famosa teoria, de que as dores do mundo são resultado da nossa infinita e insaciável vontade. Em determinado momento do seu livro “As dores do mundo”, escreve: “Nada há no mundo capaz de apaziguar a vontade, nem fixá-la de um modo duradouro: o mais que se pode obter do destino parece sempre uma esmola, que se lança aos pés do mendigo, que só conserva a vida hoje para prolongar o seu tormento amanhã.”
Para Schopenhauer, a vida é uma alternância entre a dor, vinda do desejo de obter algo (ou alguém), e do tédio, decorrente da satisfação que resulta da necessidade suprida. Assim está o homem fadado à infelicidade, já que a vontade se renova todo dia.
Por ter acreditado na frase deturpada e no conceito errado, muitas vezes tornei mais miserável alguns momentos de desvalidos. A esmola ao mendigo de Schopenhauer é uma analogia para sua teoria das vontades, e mesmo se ele acreditasse que se deve deixar mendigos morrerem de fome, eu teria toda condição e dever de contrariar o mestre, sem desprezar sua obra.
Mesmo se ancorarmos o pensamento nas justificativas “Já pago impostos, o Estado que cuide dos esmoleiros” ou “Ele vai usar o dinheiro para beber e se drogar”, a atitude é desumana e egoísta. As moedas não irão resolver a vida do mendigo, mas ele se sentirá menos excluído.
Quando não tenho dinheiro, dou duas ou três palavras, não custa nada, no máximo uma inconveniente “perseguição” por alguns metros. Ninguém gosta de ouvir lamentos, de não saber se está sendo enganado por uma história triste. Todos temos medo de ser assaltados, da violência e da loucura. Mas essas pessoas vivem a violência, a fome, a frustração, a falta de perspectiva todos os dias. “As dores do mundo deles” é bem maior que a nossa. E se ele for se drogar ou beber, talvez só assim aguente mais um dia. Ou só os bem sucedidos podem tomar seu Scotch com glamour para superar um dia pesado?
Eu dou esmolas, nem que sejam trocados de atenção.

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