Voltei a tentar acordar às cinco da manhã. Às cinco e dezenove, hoje, para ser preciso. Alguns períodos de insônia entre as três e quatro horas têm dificultado solidificar este hábito. É um horário silencioso, exceto pelos morcegos se ajeitando sob o telhado, retornando de suas jornadas e de alguns veículos pesados iniciando as suas. Tem esse zumbido no ouvido, que não pode ser considerado som, mas velhice.

Mas por que diabos acordar às cinco da manhã, se não precisa? – perguntaria alguém como a minha amada Clau. Se eu a despertasse às cinco só para curtir o silêncio e pensar, ela acordaria uma vez, pediria o divórcio e voltaria a dormir.

Acordar mais cedo do que a média é um assunto controverso e há um livro sobre esta ideia, o “Clube das cinco da manhã” de Robin Sharma. Não vou elencar todas as vantagens (as desvantagens são óbvias) mas apenas uma: o silêncio e a solidão para ouvir os próprios pensamentos. Tenho a sorte de estar numa fase da vida na qual acordo cedo com o cérebro ativo (outro sinal da idade), desde que a noite anterior não tenha sido alguma espécie de orgia. Tenho tentado o melhor de dois mundos: acordar bem cedo nos primeiros dias da semana e, a partir das quintas, ir relaxando, de modo que no sábado acordo depois da dez com a ressaca da sexta em estado avançado de cura. Nos dias madrugadores, basicamente tomo café, leio e escrevo coisas bobas que já vi e imagino.

Nas madrugadas silenciosas, quando um bêbado volta trôpego para casa, ou um trabalhador cambaleante de sono procura condução para a firma, sempre se ouve um som de descarga de banheiro ao longe. Qualquer agito no mar do silêncio é notado e sempre há um humano enviando ruidosamente seus dejetos para longe dos olhos e narinas.

Na parada de ônibus se encontram, o bêbado e o trabalhador. Um já foi o outro. Há um cumprimento silencioso, o bêbado faz menção de iniciar um discurso, o trabalhador finge cochilar encostado no ferro frio. Um sabe qual seria o teor do discurso, o outro sabe do que se trata o cochilo fingido. O acordo está feito e o silêncio vence.

Às vezes passa um carro com um som de mau gosto desproporcionalmente alto. Um desrespeito ao silêncio. Pode significar uma alegria expandida, ou uma tristeza abafada, quem sabe? O certo é que há uma solidão quieta e ameaçadora dentro de cada um, que precisa ser preenchida com algo, assim se inventou o trabalho e a cachaça. E a música de mau gosto.

No silêncio se é obrigado a ouvir os pensamentos. Benditos sejam os ruídos do dia que vêm em salvadora hora. Puxa-se a descarga. E que sumam esses pensamentos no esgoto do esquecimento! Antes de se tornarem inconvenientes e malcheirosos.

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